Naquele fim do mês de setembro ela sentou em uma praça fria da cidade cor de cinza. O dia tinha um calor morno, de sol ausente, ar abafado, nuvens escuras. Apesar dos sinais do tempo, não chovia. Era primavera afinal e, acaso morasse em outro lugar, outro lugar qualquer, provavelmente se depararia com flores variadas e coloridas, vida, muita vida, e não aquele mormaço sem vento.

Seus olhos vazavam, ainda que ela ousasse tentar controlar. O suor que escorria pela retina tinha um sabor sentido e vertia para se agasalhar em seus lábios comprimidos.

Ela golfou, em pânico. Depois bufou diante de sua própria fraqueza. Não conseguiu evitar a seqüência e expeliu, em jatos veementes, toda a angústia que brincava em seu estômago. Alguém passou com ar de nojo. Outro caminhou tomando longa distância. A maioria fingiu não ver.

Ela entendia muito bem sobre máscaras. Fingir não ver, por exemplo, era algo que ela mesma já tinha tomado como rotina.

Acariciou o ventre dilatado, trincou os dentes, fechou os olhos, depois deixou escorrer mais águas inquietas. Estava em pânico. Era a única coisa que conseguia explicar o tremor de suas mãos e a inconstância do choro em meio a um local público, no qual diferentes transeuntes caminhavam ensimesmados em suas próprias vivências.

Da extrema tristeza veio a ira. Socou-se, inconformada. Gritou ao vento. Enlouqueceu por alguns segundos.

Depois levantou frágil, persistente na ideia de caminhar em direção ao lugar do qual fugiu minutos atrás, desesperadamente só, mesmo que ao redor muitos se estendessem em lágrimas. Afinal, supunha então ser aquele um momento de despedidas.

O vestido escuro se balançou ao vento. O primeiro que a atingiu naquele fim de tarde. O mesmo vento que acalentou seus olhos aguados e a deixou suspirar como se alguma coisa de paz penetrasse em seu corpo. Ela sentiu uma fagulha de vida. Um vigor que achou ter perdido desde o início da noite do dia anterior, quando uma ligação em tom gélido informou sobre o acidente de trânsito no centro da cidade – sem sobreviventes.

Sucumbiu, então, enquanto a vida que crescia dentro de si se movimentava rudemente exigindo atenção e cuidado.

Algumas coisas simplesmente não permitiam atendimento, mas, naquele instante, tantas horas depois, ela prometia a si mesma responder sempre da melhor forma possível aos anseios do pequenino ser que se desenvolvia em seu ventre.

Ao limiar do grande portão de ferro que dava acesso a uma estreita estradinha de barro, onde pequenas edificações de cal e cimento pintavam o espaço, ela passeou os dedos longos pelo abdômen e deixou exarar um suspiro,

Close your eyes, have no fear, the monster’s gone, he’s on the run and your daddy’s here

Beautiful Boy (Darling Boy), John Lennon

Desventurar

Ela só viu a mensagem que brilhava na tela do seu celular no início da tarde.

Gustavo, como sempre, fora sucinto e direto, evitando completamente os detalhes. Algumas vezes essa precisão nas palavras dele a irritava, mas, de modo geral, quase sempre vinham acompanhadas com um que de poesia que acalmava a fera que gostava de explodir em seu peito de tempos em tempos.

Julia olhou mais uma vez para as palavras soltas e suspirou. Mantinha-se enclausurada em seu quarto, alheia ao sol gritante que se expunha do lado de fora – pesadas cortinas cerrando fortemente as janelas. Ali, ela se perdia em seus pensamentos, na confusão que estavam sendo os seus dias, e se permitia chegar ao quase choro repleto de angústias e medos. Tantos medos que oprimiam seu coração e prendiam seu fôlego a deixando muito vermelha, extremamente arredia e calada.

Matutou mais uma vez as palavras, deixando que o convite ali expresso, em tom mesclado entre súplica e mando, incrustasse-se em seu cerebelo habitualmente cansado.

Em seu intimo não queria ver gente. Mas, de repente, aquele silêncio em seu quarto, até então confortável, mostrava-se agora de tal opressão que lhe roubara o ar e imputara em seu peito ainda mais fadiga. Era mais do que querer. Precisava fugir um pouco das angústias que se tornara seu mundo.

Abriu suavemente a porta do quarto, indisposta, mais do que tudo, de ver os seus – ainda que se resumisse à irmã mais nova, de arteiros sete anos, irritantemente alheia ao tormento que tomara aquela casa.

Com um suspiro de alívio alcançou o corredor do andar e, em instante, acompanhava o descer suave do espaçoso elevador de iluminação amarelada, largo espelho e paredes cobertas por folhas finas de madeira escura. Encostou-se deixando a cabeça pender para trás, o pensamento distante, olhos banhados.

Novo suspiro.

Passeou as mãos pelos cabelos escuros, de fios levemente grossos e pontas cacheadas. Amarrou-os no alto da cabeça em um nó, deixando o pescoço longo descoberto, gotículas de suor, que ela sabia não serem provenientes do calor, deslizando pela pele extremamente pálida.

Quando alcançou a rua e a brisa do tempo lhe tomou o corpo, ela parou, permitindo-se respirar ar puro pela primeira vez em dias. Havia um silêncio quase palpável para aquela tarde de sábado.

Sem abutres visíveis querendo um pouco mais de sangue em explosões fotográficas.

Resolveu seguir a pé.

Na cidade onde morava até o ano anterior, um pequeno município de pouco mais de 50 mil habitantes e área de aproximadamente 600km², todos os seus caminhos quase sempre eram feitos daquele modo. Ainda que isso irritasse, sobremaneira, seu avô, que, assim como seus inimigos, levava a política a ferro e fogo, mantendo-se, portanto, constantemente preocupado com a sanidade dos seus.

Julia, todavia, continuou por muito tempo adepta às suas andanças realizando vastas caminhadas, fosse para onde fosse.

Ali, na capital do Estado, as distâncias, sejam curtas ou longas, quase nunca podiam ser realizadas da forma humanamente natural. Se outrora havia receio de rixas políticas, ali ela vivia em meio ao terror da violência urbana – mais e mais dias, mais e mais mortes por motivos quaisquer.

Aquela seria a primeira vez que faria aquele percurso com seus próprios pés, absolutamente sozinha.

Ela deixou correr uma lágrima com a lembrança da fúria contida do avô. Um senhor duro, de densos cabelos brancos, mas que por vezes tinha um sorriso tão suave que quase sempre a deixava em êxtase bobo quando dirigidos a ela. Os dias agora tinham contagem regressiva para ele e, da última vez que pudera ouvir sua voz, a fraqueza no tom atingira-lhe duramente o coração.

Se não bastasse a iminência da perda, a recente prisão de seu pai fundia todo o seu organismo ao chão que já não se vertia mais em lágrimas – apenas dor, murmúrios e mágoas.

Julia não conseguia entender, sequer aceitar, que seu pai encabeçava toda a ação. Que o homem por quem um dia nutrira tamanho orgulho não passava de um corrupto qualquer, como aqueles de quem ela sentia asco quando diante de tantas notícias nos jornais.

Ela chegou ao seu destino vinte minutos depois. A caminhada tinha sido vagarosa, permitindo sentir o odor suave das poucas árvores que enfeitavam aquele charmoso bairro.

Seu Izaque, o zelador, estava à frente, prestes a fechar os portões do colégio, com seu mascar usual de chicletes, bigodes bem aparados e olhar de brilho perscrutador.

– Os meninos já foram Julia – ele falou tão logo ela se aproximou o suficiente para ouvi-lo – Acho que desceram pra praia – seu tom era de quase reprimenda, como se ela tivesse culpa pela escolha dos amigos – Estavam muito salientes para que eu acredite que iam pra casa.

Ela deixou aparecer a sombra de um sorriso que não lhe tomou os olhos. Seu Izaque, por sua vez, sorriu cuidadosamente, as mãos calosas bagunçando os cabelos da jovem.

– Cê fez falta essa semana – ralhou – Eles ficaram te esperando até agorinha – o sorriso dela aumentou um pouco e ele se sentiu feliz por ter contribuído minimamente – Corre lá senão tu perde o a farra.

Ela lhe deu um breve abraço e seguiu seu caminho, ainda lentamente.

O sol morno daquela tarde deixava um véu de mormaço subir pelo asfalto quente. Até a praia, bastava atravessar duas pistas e um calçadão, o que não levou cinco minutos. Em instantes ela os via, barulhentos, vaporosos, estranhamente irritantes com sua felicidade.

Gustavo estava sentado um pouco distante dos demais, observando a movimentação do seu povo. Ele era o mais silencioso da turma e lidava muito melhor com as palavras. Mais à frente Lucas despia as vestes deixando ver o corpo extremamente magro, a cabeleira furiosa ao vento, o sorriso gigante no rosto. Henrique, também chamado de Coricó, com seu moicano densamente elevado, acompanhava-o correndo atrapalhado em direção ao mar, de modo que, ao fim, jogaram-se, ambos, às ondas.

Melodia, Patrícia e Geovan a viram chegar e gritaram em uma contagiante alegria embriagada. Eram todos tão artistas que se equilibravam em qualquer lugar, davam pulos, piruetas e performances outras arrancando aplausos e risos.

Qualquer um poderia dizer que o Grupo de Teatro da escola nunca tivera componentes tão naturalmente estrelares.

Ela sentou ao lado de Gustavo, o confortável calor do corpo amigável a alcançando quando o braço sem músculos aparentes enlaçou seu ombro.

Um copo plástico revelava uma bebida de coloração arroxeada que ela sabia ser vinho. Sentiu o cheiro adocicado que lhe chegou estranho ao olfato. Ele lhe empurrou o copo, fazendo-a forçadamente beber do líquido. E quase cuspiu, causando um riso solto no amigo que a aconchegou ainda mais ao abraço.

Sua experiência com aquela bebida provinha dos jantares realizados na casa do avô, tão apreciador a ponto de não entrarem em sua adega qualquer coisa que não fosse de extrema qualidade. Acaso pudesse ver a bebida que coloria a língua de sua neta de rosa e que a deixara zonza apenas pelo odor absurdamente doce – somado ao quase puro açúcar empapado em seu paladar – teria uma síncope. Ou uma nova síncope, considerando que seu coração já frágil batia agora lentamente no leito de um hospital.

Ela soltou um suspiro preso.

– Esse troço é muito ruim. – e a frase, completada por uma careta e mais um gole, arrancou novos risos de Gustavo, que com voz suave e extremamente morna respondeu baixinho.

– Beba, daqui a pouco estaremos grogues.

E ela bebeu, porque apenas a possibilidade de diminuir seus sentidos acalmava seu coração.

Em pouco tempo de amizade ele sabia exatamente do que ela precisava.

Da brisa do mar.

Das risadas dos outros arteiros artistas.

Do conforto daquele abraço.

Do gosto embriagante da bebida.

Ela chegou a esquecer de qualquer coisa acerca das paredes frias de um hospital, da balburdia de uma Assembleia corrompida ou de asquerosas grades – e tantas outras imagens que ultimamente lhe tomavam o sono. Ela esqueceu dela mesma, permitindo-se entrar naquela epopeia de cenas rotineiramente ensaiadas, avesso ao tempo e transeuntes quaisquer.

O vento balançou seus cabelos presos e, jogando-se para trás, ela se deixou fingir uma paz que verdadeiramente não sentia.

May you grow up to be righteous,

Que você cresça para ser justo,

May you grow up to be true,

Que você cresça para ser verdadeiro,

May you always know the truth

Que você sempre saiba a verdade

And see the lights surrounding you.

E veja as luzes ao seu redor.

May you always be courageous,

Que você seja sempre corajoso,

Stand upright and be strong,

Fique em pé e seja forte,

May you stay forever young,

Que você fique jovem para sempre.

Forever Young, Bob Dylan.

“Não me ame tanto”

Um calor vaporizava o quarto transformado em suor que gotejava as peles afoitas. Havia um que de suspiros no ar. Gemidos. Sonoridades quaisquer. O odor também penetrava a narina deixando o ambiente ainda mais inebriante.

Pureza arfou, sentindo-se tão próxima, tão ali, tão a instante de um ápice, que veio com um grunhido surpreendente e, mais, o alcance de um universo paralelo àquele que vivia.

Espasmos do corpo. Nunca da alma.

Deixou-se verter ao leito de lençóis brancos de um quarto impessoal – quase nu. Lânguida, via seu fôlego retornar calmamente, a mente sendo levada a diferentes dimensões, enquanto a outra pele, úmida, encostava-se, mais uma vez, à procura de sangue corrente, emoções, alucinações em gozo.

Uma rendição em segundos.

Jatos espasmódicos.

Depois o nada.

Um nada que a envolvia sutilmente, penetrava em seus pelos, alcançava sua pele, veias, sangue, todos os nervos, atingindo, de súbito, seu coração.

Um nada corrosivo que a cegava momentaneamente.

Nesse nada, que não tinha nome, ela se perdia cotidianamente. Depois de subverter-se aos anseios da carne, deixando-se ser conduzida por parceiros quaisquer, tomada pelo indubitável desejo de verter-se (devorar, comer, apropriar-se do outro e de si mesma), viajava a um limbo inexorável, quase doloroso de tão inevitável.

A respiração rasa, o suor que percorria o corpo, o parceiro entrelaçado aos seus membros, fazendo-a ter plena consciência de sua presença, como se o ar pesado pelo odor do sexo já não fosse o suficiente.

Pureza se permitia então viajar ao poço sem fim de sua mente. De onde, incrivelmente, não se vertia pranto. Só um vazio. Que, de modo estranho, sequer era frio. Um vazio quente, cáustico, abrasador.

E então vinham as imagens dele.

Sequenciadas como um filme, elas apertavam o seu peito com tamanha intensidade que à Pureza só restava deixar-se levar, atingida pelas fotografias de sua vida, na qual, diante de uma claridade, mergulhava rotineiramente como uma elegante mãe e mulher “de família”.

A mascara não seria tão angustiante se ele a tivesse escutado, anos antes, quando verborizara, para todos os ventos, que não conseguiria se encaixar. Ele, amante, crente em qualquer coisa ilusória acerca do amor, deixou-se levar pelo calor dos seus corpos no momento precípuo do coito, mesmo enquanto ela sussurrava em seu ouvido estremecido “não me ame tanto”.

“Não me ame tanto”, sussurrava, mais e mais e mais uma vez, apertando o corpo masculino ao seu e deixando-se levar pelo abismo do prazer.

Não podia negar a si mesma que sentia uma satisfação plena em poder afirmar que agia com total sinceridade com os seus amantes. Tratava-se da vontade do corpo. E só. Mas, ao mesmo tempo, ele tivera um carisma tão extasiante, e, com seu sorriso largo de dentes brancos, levou-a, minuciosamente, até seus pés, conseguindo, sabe-se os céus como, acorrentá-la àquilo que outrora gritara ser uma instituição falida.

Ela sempre detestara a ideia de casamento.

O tempo não lhe mudara a razão.

“Não me ame tanto”, não era o que ela lhe sussurrava sempre que estavam ali, prestes, quase a explodirem no ar, enquanto sentia o calor do amor extensivo que ele lhe doava alcançando o próprio peito?

“Não me ame tanto”. Apenas isso.

O vento que passeou pela janela aberta deixou o ar circular naquele cômodo. Lá fora havia um que de mormaço, um quase verão tão quente como não se via há décadas. Ela suspirou, balançando os cabelos longos e molhados pelo exercício, levantando-se suavemente.

Precisou de poucos minutos para sair, em silêncio, porta a fora daquele quarto de hotel.

No leito ainda jazia uma figura que sua mente já não permitia rememorar a face. Uma recordação que jamais viria, sequer se um esbarrão da vida os levasse a um novo encontro mais à frente.

Atingiu a rua movimentada daquele início de tarde de Segunda, deixou-se perder pelo movimento de gente e, num descuido, acabou de frente à praia, com o mar, naquela feita selvagem, devorando-lhe os olhos.

Não pode evitar o sorriso que se desenhou em seu rosto.

Depois um suspiro entregue.

Um vazio preenchido por emoções quaisquer. A vibração da vida. De quase plenitude.

Ela sabia.

Era só a sensação de saciedade.

Pego tudo
O meu e o seu amor
Faço um bolo de amor
E jogo fora
Ou como e gozo
Dentro

Karina Buhr, Não me ame tanto

(A)Poética

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A bailarina, ilustração por Matheus Ferreira (http://defrentepropc.blogspot.com.br/)

Ela tinha uma coisa com a vida. Um caso talvez. Uma gana por seus dias, quiçá. Saboreava, ardentemente, como quem se permite o queimor de um abrasivo sol de verão; como quem experimenta pela primeira vez um sorvete em pleno calor; como quem canta com toda a voz, gritos exacerbantes exasperados pelo ar. Há quem diga que ela era a própria vida. Por que ela brilhava? Por que ela ria solto?

E na corda bamba ela se equilibrava com os dois pés, as mãos esticadas no ar, o vento balançando suavemente os cabelos curtos.

Ela tinha qualquer coisa com a morte. Uma sintonia quem sabe. Coisas de subterfúgios. E tinha plena convicção, ou completa ideia, de como seria sua despedida final. Como receberia o beijo frio da dama escura enquanto seguraria sua mão gélida e, com um sorriso plácido, permitir-se-ia ser levada entre seus dedos até outro mundo sem nome.

Sentia-se quase vulgar quando falava sobre isso, mas ela era a própria morte também.

E, vivendo os dois personagens, enquanto capturava um pouco mais de tempo para saborear os dias de sol, ela flutuou entre espaços e, com espasmos quaisquer, subverteu-as.

Não era mais vida. Sequer morte. Era um estado limítrofe, talvez. Nada conseguiria encaixá-la em quadrados previamente designados.

Sorriu jocosa enquanto subia ao ar, o vento cada vez mais cálido. Sentia calor no lugar de frio e, muito quente, deixou-se passear pelo espaço, enquanto procurava outros lugares, outras possibilidades, outras vivências repletas de dubiedade.

E vinha-lhe, então, um pleno gosto de liberdade.

 

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes, Poética

“Ah que caminho tão longe…”

Sertão do Moxotó, Pernambuco – 1954.

“Ah que caminho tão longe que ninguém se perde nele”, ela pensou arrastando a longa cabeleira dourada sobre os ombros, até enrolá-la completamente prendendo no topo da cabeça. O suor salgado escorria por seu pescoço delicado chegando aos ombros ligeiramente largos. O sol a pino fazia cintilar a terra como se a qualquer instante uma miragem fosse surgir e salvar todos os retirantes.

Ela sorriu do pensamento bobo que a perseguia desde o instante em que se enfastiara daquela caminhada de, se não perdera a conta no decorrer do caminho, longos dez anos. Vivia de passagem há tanto tempo que lhe seria irreconhecível cuidar da terra e do gado como seu pai ousara tantos anos atrás.

De que lhe adiantaria ver os bichos fenecerem de sede, definhando dia a dia até se tornarem alimentos para os urubus? Do que lhe adiantaria ver a terra se partir ao meio e o sol escaldante que lhes ardia os pés e a cabeça destruir as plantações que por vezes sequer germinavam?

Ruminava silenciosa, buscando ainda a sensação da brisa quente que passara por seu corpo segundos antes.

Alguém lhe ofereceu um mandacaru verde. Olhou para o outro. Seu irmão Benedito, em pé à sua frente, sorria-lhe com ar fatigado. Aquela andança derrubara todos os seus, ela podia perceber pelos ombros curvados, escondidos embaixo do grande juazeiro que encontraram minutos antes.

Naquele instante, ela liderava apenas dez homens.

“Liderara”, reformulou. O passado já não era mais o presente. E o cangaço, cada dia mais, jazia esquecido sob as armas dos policiais do sertão, sempre tão bem pagos pelos senhores de terra.

O governo Vargas havia derrubado todos os seus ídolos. E agora um áurea de ditadura parecia se aproximar do país. O sertão não estaria incólume a ela.

Pensou em seu irmão Corisco e em sua morte que nunca seria vingada. Era o mais velho, o líder de um bando por vezes visto como impetuoso, mas que, em verdade, buscava uma igualdade de seu povo. Pedia por água, por alimento, por vida. Ousava ir de encontro aos ideais aristocráticos que se instalara em sua terra de seca. E por isso eram repudiados e quase sempre vencidos.

Quantos dos seus não morreram em batalhas nunca findadas?

Seu irmão fora um deles. E os anos correram soltos, tornando-a líder do bando, protetora dos miseráveis, uma miragem dentre os homens de aparência rude e roupas grossas.

“Joana a justiceira”, não foi como fora chamada no último povoado pelo qual passaram dias antes?

Joana já não almejava mais justiça alguma.

O cangaço estava vencido. Ou pereciam nas mãos da policia da região, porque em algum momento eles os encontrariam, ou sairiam daquela vida desregrada. Depois de longas discussões, optaram pela segunda. E ali, embaixo do enorme Juazeiro, dava-se a grande despedida.

Talvez por isso ela olhasse tão profundamente para cada um dos seus ex-homens. Seu bando do qual tinha tanto orgulho da coragem, da honra, com que espantavam os inimigos. A rudeza nas mãos rasgadas pelo tempo e nos olhos, tão amarelados, não conseguia demonstrar a tamanha grandeza que possuíam em seus corações.

Após a morte do irmão mais velho ficaram apenas aqueles que lhes eram mais fiéis. E a protegeram como grande líder que era. Sabia que devia a sua vida a eles. Incontáveis vezes.

O sol ainda torrava e ela bebeu o líquido que vertia do mandacaru com sede implacável.

O temido fim chegava.

À frente a estrada tão infinita sob um véu de poeira causou-lhe um retumbar no coração. Em algumas horas alcançaria a construção de barro que fazia parte de suas melhores lembranças da infância, mas que jazia vazia de calor. Inerte diante do sertão que nunca virara mar.

Sua mãe não chegara a ver o seu maior anseio, acreditando piamente nas palavras do conselheiro.

Joana não acreditava em ninguém.

Apenas no cabo de sua peixeira e na cartucheira que alimentava sua pistola e que lhe envolvia o colo. Ali é que estava o seu coração e a sua esperança.

 

Oh! que caminho tão longe
Que ninguém se perde nele
Penando tanto arrudeio
Por causa das luminária
Das mães de Deus das Candêa

Salve, Cordel do Fogo Encantado

 

Para saber mais sobre Joana, em: https://fluxosdesconexos.wordpress.com/2013/09/06/degredados-filhos-de-eva/

Calado e seu silêncio

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Foi em um dia como outro qualquer. Era inverno, ou quase primavera, em algum momento daquele setembro. O tempo se mostrava ameno. O vento do litoral balançava os cabelos desavisados, murmurava palmeiras e árvores avessas, penetrando peles arrepiadas. Por sorte não chovia e a roda, daquele tipo composta por calças brancas e pés descalços, gingava sossegada.

Tinha um tal de remelexo. Um som espalhado pelo espaço. Uma cantoria envolvendo corpos. E suor e noite e luar de lua cheia, redonda, amante.

Calado apareceu com a roda já mexida. Apareceu, como era de esperar, em seu silêncio habitual. Era um sujeito tinhoso, baiano quase mineiro, do tipo que come quieto e doa aquele sorriso buliçoso para “deus e o mundo”. Nesse dia ele chegou até sem arreganhar muito os dentes o que causou uma estranheza danada entre os demais.

Chegou pelas beiradas, a calça folgada se arrastando com as bainhas pelo chão, o peito desnudo sem pelos, braços de músculos levemente distendido cruzados quase ofensivamente.

Calado, tão silencioso como de costume, custou a cruzar os olhos com qualquer um dos seus. Era de uma estranheza tão notável que até a vibração da roda, jogando em suave angola, arrefeceu, deixando no ar noturno um cheiro de problema/confusão/baixaria. “Qual foi a que Calado aprontou dessa vez?”, perguntavam-se os amigos mais chegados.

Aqueles que saiam rapidamente da roda até tentaram chegar mais perto, mas o bicho parecia estar mais atento às formigas que corriam de ser pisoteadas naquele chão de concreto que compunha uma das tantas praças daquela capital. A roda vibrava mais uma vez e o faltante voltava ao seu intento inicial, que fundamentava a sua presença ali: a cantoria na voz, as palmas nas mãos.

Até que Calado não aguentando a distância daquele rebuliço se encostou na roda, assentando-se num banco qualquer, logo recebendo um berimbau em suas mãos. Nessa hora até que ele cantou e quase parecia disposto àquele espetáculo que tanto amava.

A roda foi se desfazendo aos poucos. Capoeiras caminhando pra diferentes destinos enquanto a lua, cada vez mais diminuta em um céu quase sem estrelas, ia, vagarosamente, fechando a noite. Os transeuntes que assistiam se dispersaram suavemente. Mas Calado, mais silencioso do que de costume, continuava ali, dessa vez ao chão, pés descalços, berimbau na mão, entoando cantorias quaisquer.

Os amigos de Calado tinham um tal de um pacto de silêncio. Eram meio “bichos do mato” e ninguém era dado de se meter nas histórias de ninguém não! Era um negócio de não se envolver na vida do outro que o incitaram a deixarem o Calado lá, calado, enfurnado em seu mundo, envolvido em um trânsito cada vez mais lento naquela parte da cidade – seja trafego de carros, seja de pessoas.

Foi então que aconteceu.

Ela chegou com a saia de costume. Era rodada. Era de renda bonita. E branca. E voava com o vento daquela noite de inverno quase primavera. E Calado parou de tocar imediatamente. O ritmo que ouvia agora retumbava em seu peito e ele tinha plena certeza, era uma mistura de baião com samba, forró com rock, um tal de vuco-vuco que nem ele conseguia identificar.

Acontece que mais uma vez a danada não chegou sozinha. Ao lado dela um sujeito tal garboso, naturalmente arrumadinho demais, visivelmente muito diferente de Calado fazendo com que este reverberasse um bufo ruidoso, provavelmente o primeiro som que saia de seus lábios naquela noite.

“Só podia ser mulher”, um dos amigos ousou dizer num riso, recebendo o olhar cru de Calado que o silenciou rapidamente.

Ela chegou com seu rebolado usual. Lábios abertos, gengivas à mostra, dentes tão brancos de quase reluzir.

Os poucos que restaram fizeram festa. Eram abraços, beijos, palavras. Calado se mantinha calado, olhos fixos ora no chão ora na figura quase bailarina à sua frente. Ele até que tentou falar. Resmungou qualquer palavra pro maldito, deixou escapar seu sorriso mais aberto pra morena, e voltou a ressoar a corda do berimbau.

Não demorou até ela se aproximar e tremular qualquer palavra em seu ouvido, arrepiando os poucos pelos que o coitado tinha. O outro sujeito fechou a fuça, puxou o braço da pequena, quis fazer balburdia na frente da freguesia inteira.

Calado, capoeira de nascimento, levantou de um pulo num gingado só, assustando até mesmo os amigos que naquela noite já tinham se acostumado com o estado momentâneo de plena mudez do cabra.

O suor que percorreu suas costas era um sinal de mudança de tempo. O vento parou. Silencio de sepulcro, enterro, antevendo guerra mundial. O olhar vermelho previa sangue. Ela ficou no meio, lançando a Calado um daqueles olhares pedintes, um daqueles que ele conhecia, um daqueles de antes, quando ainda eram um par.

Um par antes dele se engraçar com outro rabo de saia qualquer, quase uma notícia no jornal, e perder a mulher.

Não é que Calado fosse do tipo mulherengo.

Estava mais prum sujeito da vida. Bicho solto. Do tipo que não pode se apegar a ninguém.

Mas coração tem aviso, por acaso? E que culpa ele tinha de apaixonar justo por Maria? Logo Maria que dizia que só trabalhava com exclusividade e nos seus termos? Até que a Dona Moça conseguiu segurar Calado por bastante tempo, mas ele tinha asa solta e suas gengivas chegavam em outras paragens antes mesmo de seu corpo.

Ele chamava gente. Incrivelmente, era de sua natureza calada.

E se Calado sentia falta de Maria que culpa ele tinha? A bem da verdade ele nem ligava pro tal sujeito que a segurava com tamanha posse. Ele se importava, sim, era com esse aperto que o rapaz dava na sua pequena como se Dona Moça tivesse coleira, sendo que ela era tão livre quanto qualquer passarinho que ele conhecia. Mesmo aqueles que ele ainda ousava prender em suas tocaias, só pra se arrepender no instante seguinte e largar solto.

Nem Dona Moça Maria sabia muito bem o que fazia na companhia daquele sujeito. Mas tinha consciência que Calado era do tipo boa praça até certo ponto. E no instante seguinte podia rapidamente perder as estribeira.

Ela olhou pros dois. De um lado a outro. Um monte de caraminhola percorrendo sua cabeça.

Suspirou vencida.

Duas vezes.

Calado ainda tinha fogo nos olhos. O outro tinha qualquer coisa que ela não conseguia identificar. Não o conhecia a tempo suficiente.

Olhou pros demais de ombros tensos que cercavam os três. Estavam atentos a qualquer necessidade de Calado, ela sabia. Eclodiria alguma guerra ali por acaso? Ela levantou a mãos pros céus. Outro suspiro cansado ultrapassando os lábios. E saiu porta a fora da roda, que já não era de vibrante cantoria. Ela iria era sambar em outro lugar.

Calado sentou mais uma vez no chão. O silencio reverberando seus espaços, vendo o outro correr atrás da saia de Maria que se lhe deu trela foi de escárnio, enquanto ele mesmo entoava:

Maria pé no mato é hora, Maria pé no mato é hora

Arriba a saia vamo-nos embora, arriba a saia vamo-nos embora

Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vá embora…

Caetano Veloso, Triste Bahia

Laura e o espelho

Tolice.”

Naquela feita ela se dirigia à figura refletida que esticava, curiosamente, as pequeninas rugas que já compunham a face de quase vinte e oito anos. Tinha na tez um olhar de espanto. As mãos lentamente se espalmando sobre o rosto numa clara alusão ao “O Grito”, de Edvard Munch.

Tolice!”

Dessa vez ela gritou, colérica, os olhos correndo a face reflexa, todos os traços, todas as possibilidade, todos os pequeninos pontos que até outro dia, instantes atrás, talvez?, ela considerava seu – em inteireza.

Havia um ar frio percorrendo o tempo enquanto uma chuva tórrida de fim de inverno batucava as janelas de vidro espesso produzindo uma espécie de música e uma pintura molhada de lágrimas.

Ela não conseguia tirar os olhos da figura perdendo, levemente, a noção de tudo o mais que a envolvia.

Tolice?

Não pode deixar de entoar o questionamento enquanto verificava os traços delineados dos lábios, vermelhos e parcialmente inchados.

Tolice, Laura!”

Disse a si mesma, mas já não sabia se a voz saia dela ou da figura refletida distorcidamente pelo espelho. Aproximou-se o quanto possível, o ar que exalava suas narinas ultrapassando a superfície fria, assemelhando-se a neblina e, nublado, atingindo a outra face.

O reflexo de Laura tremulou tornando possível ver grandes orbes castanhas brilhando com certa sagacidade.

Aquela era ela? Não pode deixar de perguntar a si mesma, enquanto vislumbrava as mesmas vestes que a cobria no reflexo cru.

Estava pasma. Passada. Incrédula? Enquanto a outra Laura ria, quase às gargalhadas, entre murmúrios: “tolice Laura, tolice”.

Hoje eu arrasei na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei

Chico Buarque, A mais bonita