“Degredados filhos de Eva”

Rio Branco, Pernambuco – 11 de setembro de 1928.

O suor escorria quente sobre as peles queimadas pelo sol. Lá fora o dia jazia claro e ardente enquanto a terra se repartia em bandas à expectativa da chuva que nunca vinha. O ar etéreo, sem vento, via quebrado o silêncio pelos urros que cortavam a garganta. Lá dentro, o espectro da escuridão no quarto que aguava em calor.

Nele, a tensão dos presentes podia ser sentida. Estava contida no odor, nas faces que expunham medos.

Seu Manuel Severo, Mané para os mais íntimos, encontrava-se encostado à porta, apertando o chapéu de couro puído pelo tempo, amargando a barba já rala que lhe cobria a face, os lábios crispados, os olhos agudos. Andava de um lado a outro e ousava, no máximo, chegar ao alpendre que lhe dera tanto trabalho para fazer – as lascas finas do angico às vezes se desprendiam furando os dedos de seus meninos.

Na cama, cujo colchão era feito com as folhas da aroeira, Celeste gemia. Banhada em suor, chorava a dor de mais uma contração que explodia em seu ventre já latente. O vestido colorido, que colocara mais cedo para a comemoração da independência da cidade, ainda assentava-se em seu corpo em meio ao líquido de aparência mucosa e o sangue que percorria as suas coxas.

Ao seu pé, Socorro lhe trazia algum conforto. Fora chamada em desespero por seu compadre, horas antes, quando Celeste apresentara as primeiras dores. Era a única parteira da região e, de suas mãos, muitos fetos ganharam vida – ou morte. A profissão aprendera com a mãe, que aprendera com a sua avó e assim por diante. Tornou-se um encargo de família do qual tinha muito orgulho.

Mal lembrava os rostos e os nomes dos ombros fortes ou seios fartos que sobrevieram. Sabia apenas que cresciam e produziam mais crias. Não ficaria sem trabalho, mas podia vê-los morrer da seca que os atingiam. Por quantos velara? Não tinha um número. Já vira caixões de juazeiro de todos os tamanhos, mas ainda permanecia viva, sentindo nos ossos o gosto do adeus.

Sua filha tremia ao seu lado. Para a menina ainda lhe era estranho aquele ato. A situação tão intima das partes de uma mulher expostas aos seus olhares. O constrangimento da dor, a possibilidade da ausência de vida. Nunca se sabia o que sairia do ventre.

A antecipação era, naqueles momentos, a melhor amiga.

Temeu pela possibilidade do não prosseguimento de seu legado, mas não pode perdurar no pensamento. A contração que se seguiu foi ainda mais forte e furiosa. Celeste apertava os lábios com os dentes produzindo um fio de sangue. O pedaço de couro fino que cobria a cama era esmagado por suas mãos, cujas veias se punham cada vez mais latentes. Dos lábios vermelhos mais um grito de dor extrapolou os ouvidos.

Alguns fios lustrados pelo sangue apareciam por entre as pernas abertas. Socorro pode ver a cabeça pequena sendo expelida brutalmente. Vermelha pela força, Celeste parecia perder o fôlego e, lânguida, apoiava-se aos cotovelos gemendo de dor.

– Força muié, a criança tá saindo! – a parteira reclamou chamando atenção de Seu Manuel que estava dois passos além do alpendre e retornou em apenas um invadindo o pequeno quarto.

Aproximou-se da mulher, segurando-lhe a pequenina mão direita entre seus dedos grandes.

– Minha preta – disse fitando a íris cinza da mulher, cuja tez, antes tão clara, expunha uma coloração avermelhada – Força…

Nos olhos acastanhados dele, que sempre a remetiam ao tronco de um juazeiro sadio, ela pode ver todo o amor que nutriam. As trocas de afeições desde a tenra infância, a amizade proibida, a paixão e o amor. O amor que venceu todas as tragédias e a seca. Que resultara nos quatro meninos que cresciam e que deviam estar correndo por entre as fitas coloridas dispostas no centro da cidade, brincando com a felicidade de se ter uma festa onde todo redor é miséria.

O quinto viria ali. Podia senti-lo rompendo as barreiras da natureza, subvertendo. Depois de dois filhos mortos no parto sabia o que a demora poderia causar e foi essa apreensão que lhe tomou os nervos.

Agarrou-se à mão calejada do marido e, com o resquício de força que descobriu ainda concentrada, urrou com todos os pulmões, vertendo de si a criança que prendia entre as pernas.

O choro preencheu o quarto, a pequena casa, o terreno insólito na qual se estendia. Forte e sentido, arrancou suspiros de alívio e sorrisos nos pais.

A parteira havia apanhado o bebê com toda sua experiência. Limpou-o calmamente, untando-o com a oração que sua mãe lhe ensinara. Seria protegido por Nossa Senhora das Candeias como todo seu povo.

– É uma menina – disse entregando o embrulho ainda ruidoso em direção ao colo materno. A criança se calou ante o cheiro de leite e os lábios rosados tentavam apanhar um dos seios que havia sido descoberto na tentativa falha do despir – Uma rapariga dentre os “rapaz” – sorriu já sem alguns dentes – Meu “trabaio” tá feito. Agora eu vou, mó de que ainda tenho uma festa pra participar.

Puxou a filha num tranco frouxo e em segundos saiam da casa em passos lentos. O sol escaldante daquela primavera, que mais parecia verão, lhes queimariam as cabeças, mas a manta de crochê as protegiam. Da janela Manuel viu as duas figuras se distanciarem até se tornarem um turvo entre a névoa da seca.

Depois seus olhos desceram até a cama onde sua mulher observava atentamente a nova cria. A face perdia pouco a pouco a cor avermelhada e a penugem que cobria a pequenina cabeça ainda tinha resquício de sangue, todavia os olhos observavam, semicerrados, a mãe, enquanto sua fome era saciada.

Naquele instante decidiu chamá-la de Joana. Joana do Nascimento Severo. Joana de Rio Branco.

A sua Joana por tanto tempo imaginada.

 

Ah! Joana Imaginária
Permita que o Conselheiro
Encoste sua cabeleira
No teu colo de oratórios
Tua saia de rosários
Teu beijo de cera quente

E assim na derradeira lua branca
Quando todos os rios virarem leite
E as barrancas cuscuz de milho
E as estrelas tocadeiras de viola
Caírem uma por uma
Os soldados do rei D. Sebastião
Mostrarão o caminho

Profecia (ou Testamento da Ira), Cordel do Fogo Encantado

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4 comentários sobre ““Degredados filhos de Eva”

  1. No decorrer da degustação, de logo, o Velho Chico desaguou sob mim. De verdade.
    E para minha surpresa, no texto logo acima, a influência veio a tona.
    Com sensibilidade, é possível vê a pequena Joana desenhando suas primeiras braçadas.

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