“Ah que caminho tão longe…”

Sertão do Moxotó, Pernambuco – 1954.

“Ah que caminho tão longe que ninguém se perde nele”, ela pensou arrastando a longa cabeleira dourada sobre os ombros, até enrolá-la completamente prendendo no topo da cabeça. O suor salgado escorria por seu pescoço delicado chegando aos ombros ligeiramente largos. O sol a pino fazia cintilar a terra como se a qualquer instante uma miragem fosse surgir e salvar todos os retirantes.

Ela sorriu do pensamento bobo que a perseguia desde o instante em que se enfastiara daquela caminhada de, se não perdera a conta no decorrer do caminho, longos dez anos. Vivia de passagem há tanto tempo que lhe seria irreconhecível cuidar da terra e do gado como seu pai ousara tantos anos atrás.

De que lhe adiantaria ver os bichos fenecerem de sede, definhando dia a dia até se tornarem alimentos para os urubus? Do que lhe adiantaria ver a terra se partir ao meio e o sol escaldante que lhes ardia os pés e a cabeça destruir as plantações que por vezes sequer germinavam?

Ruminava silenciosa, buscando ainda a sensação da brisa quente que passara por seu corpo segundos antes.

Alguém lhe ofereceu um mandacaru verde. Olhou para o outro. Seu irmão Benedito, em pé à sua frente, sorria-lhe com ar fatigado. Aquela andança derrubara todos os seus, ela podia perceber pelos ombros curvados, escondidos embaixo do grande juazeiro que encontraram minutos antes.

Naquele instante, ela liderava apenas dez homens.

“Liderara”, reformulou. O passado já não era mais o presente. E o cangaço, cada dia mais, jazia esquecido sob as armas dos policiais do sertão, sempre tão bem pagos pelos senhores de terra.

O governo Vargas havia derrubado todos os seus ídolos. E agora um áurea de ditadura parecia se aproximar do país. O sertão não estaria incólume a ela.

Pensou em seu irmão Corisco e em sua morte que nunca seria vingada. Era o mais velho, o líder de um bando por vezes visto como impetuoso, mas que, em verdade, buscava uma igualdade de seu povo. Pedia por água, por alimento, por vida. Ousava ir de encontro aos ideais aristocráticos que se instalara em sua terra de seca. E por isso eram repudiados e quase sempre vencidos.

Quantos dos seus não morreram em batalhas nunca findadas?

Seu irmão fora um deles. E os anos correram soltos, tornando-a líder do bando, protetora dos miseráveis, uma miragem dentre os homens de aparência rude e roupas grossas.

“Joana a justiceira”, não foi como fora chamada no último povoado pelo qual passaram dias antes?

Joana já não almejava mais justiça alguma.

O cangaço estava vencido. Ou pereciam nas mãos da policia da região, porque em algum momento eles os encontrariam, ou sairiam daquela vida desregrada. Depois de longas discussões, optaram pela segunda. E ali, embaixo do enorme Juazeiro, dava-se a grande despedida.

Talvez por isso ela olhasse tão profundamente para cada um dos seus ex-homens. Seu bando do qual tinha tanto orgulho da coragem, da honra, com que espantavam os inimigos. A rudeza nas mãos rasgadas pelo tempo e nos olhos, tão amarelados, não conseguia demonstrar a tamanha grandeza que possuíam em seus corações.

Após a morte do irmão mais velho ficaram apenas aqueles que lhes eram mais fiéis. E a protegeram como grande líder que era. Sabia que devia a sua vida a eles. Incontáveis vezes.

O sol ainda torrava e ela bebeu o líquido que vertia do mandacaru com sede implacável.

O temido fim chegava.

À frente a estrada tão infinita sob um véu de poeira causou-lhe um retumbar no coração. Em algumas horas alcançaria a construção de barro que fazia parte de suas melhores lembranças da infância, mas que jazia vazia de calor. Inerte diante do sertão que nunca virara mar.

Sua mãe não chegara a ver o seu maior anseio, acreditando piamente nas palavras do conselheiro.

Joana não acreditava em ninguém.

Apenas no cabo de sua peixeira e na cartucheira que alimentava sua pistola e que lhe envolvia o colo. Ali é que estava o seu coração e a sua esperança.

 

Oh! que caminho tão longe
Que ninguém se perde nele
Penando tanto arrudeio
Por causa das luminária
Das mães de Deus das Candêa

Salve, Cordel do Fogo Encantado

 

Para saber mais sobre Joana, em: https://fluxosdesconexos.wordpress.com/2013/09/06/degredados-filhos-de-eva/

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