“Não me ame tanto”

Um calor vaporizava o quarto transformado em suor que gotejava as peles afoitas. Havia um que de suspiros no ar. Gemidos. Sonoridades quaisquer. O odor também penetrava a narina deixando o ambiente ainda mais inebriante.

Pureza arfou, sentindo-se tão próxima, tão ali, tão a instante de um ápice, que veio com um grunhido surpreendente e, mais, o alcance de um universo paralelo àquele que vivia.

Espasmos do corpo. Nunca da alma.

Deixou-se verter ao leito de lençóis brancos de um quarto impessoal – quase nu. Lânguida, via seu fôlego retornar calmamente, a mente sendo levada a diferentes dimensões, enquanto a outra pele, úmida, encostava-se, mais uma vez, à procura de sangue corrente, emoções, alucinações em gozo.

Uma rendição em segundos.

Jatos espasmódicos.

Depois o nada.

Um nada que a envolvia sutilmente, penetrava em seus pelos, alcançava sua pele, veias, sangue, todos os nervos, atingindo, de súbito, seu coração.

Um nada corrosivo que a cegava momentaneamente.

Nesse nada, que não tinha nome, ela se perdia cotidianamente. Depois de subverter-se aos anseios da carne, deixando-se ser conduzida por parceiros quaisquer, tomada pelo indubitável desejo de verter-se (devorar, comer, apropriar-se do outro e de si mesma), viajava a um limbo inexorável, quase doloroso de tão inevitável.

A respiração rasa, o suor que percorria o corpo, o parceiro entrelaçado aos seus membros, fazendo-a ter plena consciência de sua presença, como se o ar pesado pelo odor do sexo já não fosse o suficiente.

Pureza se permitia então viajar ao poço sem fim de sua mente. De onde, incrivelmente, não se vertia pranto. Só um vazio. Que, de modo estranho, sequer era frio. Um vazio quente, cáustico, abrasador.

E então vinham as imagens dele.

Sequenciadas como um filme, elas apertavam o seu peito com tamanha intensidade que à Pureza só restava deixar-se levar, atingida pelas fotografias de sua vida, na qual, diante de uma claridade, mergulhava rotineiramente como uma elegante mãe e mulher “de família”.

A mascara não seria tão angustiante se ele a tivesse escutado, anos antes, quando verborizara, para todos os ventos, que não conseguiria se encaixar. Ele, amante, crente em qualquer coisa ilusória acerca do amor, deixou-se levar pelo calor dos seus corpos no momento precípuo do coito, mesmo enquanto ela sussurrava em seu ouvido estremecido “não me ame tanto”.

“Não me ame tanto”, sussurrava, mais e mais e mais uma vez, apertando o corpo masculino ao seu e deixando-se levar pelo abismo do prazer.

Não podia negar a si mesma que sentia uma satisfação plena em poder afirmar que agia com total sinceridade com os seus amantes. Tratava-se da vontade do corpo. E só. Mas, ao mesmo tempo, ele tivera um carisma tão extasiante, e, com seu sorriso largo de dentes brancos, levou-a, minuciosamente, até seus pés, conseguindo, sabe-se os céus como, acorrentá-la àquilo que outrora gritara ser uma instituição falida.

Ela sempre detestara a ideia de casamento.

O tempo não lhe mudara a razão.

“Não me ame tanto”, não era o que ela lhe sussurrava sempre que estavam ali, prestes, quase a explodirem no ar, enquanto sentia o calor do amor extensivo que ele lhe doava alcançando o próprio peito?

“Não me ame tanto”. Apenas isso.

O vento que passeou pela janela aberta deixou o ar circular naquele cômodo. Lá fora havia um que de mormaço, um quase verão tão quente como não se via há décadas. Ela suspirou, balançando os cabelos longos e molhados pelo exercício, levantando-se suavemente.

Precisou de poucos minutos para sair, em silêncio, porta a fora daquele quarto de hotel.

No leito ainda jazia uma figura que sua mente já não permitia rememorar a face. Uma recordação que jamais viria, sequer se um esbarrão da vida os levasse a um novo encontro mais à frente.

Atingiu a rua movimentada daquele início de tarde de Segunda, deixou-se perder pelo movimento de gente e, num descuido, acabou de frente à praia, com o mar, naquela feita selvagem, devorando-lhe os olhos.

Não pode evitar o sorriso que se desenhou em seu rosto.

Depois um suspiro entregue.

Um vazio preenchido por emoções quaisquer. A vibração da vida. De quase plenitude.

Ela sabia.

Era só a sensação de saciedade.

Pego tudo
O meu e o seu amor
Faço um bolo de amor
E jogo fora
Ou como e gozo
Dentro

Karina Buhr, Não me ame tanto

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