Desventurar

Ela só viu a mensagem que brilhava na tela do seu celular no início da tarde.

Gustavo, como sempre, fora sucinto e direto, evitando completamente os detalhes. Algumas vezes essa precisão nas palavras dele a irritava, mas, de modo geral, quase sempre vinham acompanhadas com um que de poesia que acalmava a fera que gostava de explodir em seu peito de tempos em tempos.

Julia olhou mais uma vez para as palavras soltas e suspirou. Mantinha-se enclausurada em seu quarto, alheia ao sol gritante que se expunha do lado de fora – pesadas cortinas cerrando fortemente as janelas. Ali, ela se perdia em seus pensamentos, na confusão que estavam sendo os seus dias, e se permitia chegar ao quase choro repleto de angústias e medos. Tantos medos que oprimiam seu coração e prendiam seu fôlego a deixando muito vermelha, extremamente arredia e calada.

Matutou mais uma vez as palavras, deixando que o convite ali expresso, em tom mesclado entre súplica e mando, incrustasse-se em seu cerebelo habitualmente cansado.

Em seu intimo não queria ver gente. Mas, de repente, aquele silêncio em seu quarto, até então confortável, mostrava-se agora de tal opressão que lhe roubara o ar e imputara em seu peito ainda mais fadiga. Era mais do que querer. Precisava fugir um pouco das angústias que se tornara seu mundo.

Abriu suavemente a porta do quarto, indisposta, mais do que tudo, de ver os seus – ainda que se resumisse à irmã mais nova, de arteiros sete anos, irritantemente alheia ao tormento que tomara aquela casa.

Com um suspiro de alívio alcançou o corredor do andar e, em instante, acompanhava o descer suave do espaçoso elevador de iluminação amarelada, largo espelho e paredes cobertas por folhas finas de madeira escura. Encostou-se deixando a cabeça pender para trás, o pensamento distante, olhos banhados.

Novo suspiro.

Passeou as mãos pelos cabelos escuros, de fios levemente grossos e pontas cacheadas. Amarrou-os no alto da cabeça em um nó, deixando o pescoço longo descoberto, gotículas de suor, que ela sabia não serem provenientes do calor, deslizando pela pele extremamente pálida.

Quando alcançou a rua e a brisa do tempo lhe tomou o corpo, ela parou, permitindo-se respirar ar puro pela primeira vez em dias. Havia um silêncio quase palpável para aquela tarde de sábado.

Sem abutres visíveis querendo um pouco mais de sangue em explosões fotográficas.

Resolveu seguir a pé.

Na cidade onde morava até o ano anterior, um pequeno município de pouco mais de 50 mil habitantes e área de aproximadamente 600km², todos os seus caminhos quase sempre eram feitos daquele modo. Ainda que isso irritasse, sobremaneira, seu avô, que, assim como seus inimigos, levava a política a ferro e fogo, mantendo-se, portanto, constantemente preocupado com a sanidade dos seus.

Julia, todavia, continuou por muito tempo adepta às suas andanças realizando vastas caminhadas, fosse para onde fosse.

Ali, na capital do Estado, as distâncias, sejam curtas ou longas, quase nunca podiam ser realizadas da forma humanamente natural. Se outrora havia receio de rixas políticas, ali ela vivia em meio ao terror da violência urbana – mais e mais dias, mais e mais mortes por motivos quaisquer.

Aquela seria a primeira vez que faria aquele percurso com seus próprios pés, absolutamente sozinha.

Ela deixou correr uma lágrima com a lembrança da fúria contida do avô. Um senhor duro, de densos cabelos brancos, mas que por vezes tinha um sorriso tão suave que quase sempre a deixava em êxtase bobo quando dirigidos a ela. Os dias agora tinham contagem regressiva para ele e, da última vez que pudera ouvir sua voz, a fraqueza no tom atingira-lhe duramente o coração.

Se não bastasse a iminência da perda, a recente prisão de seu pai fundia todo o seu organismo ao chão que já não se vertia mais em lágrimas – apenas dor, murmúrios e mágoas.

Julia não conseguia entender, sequer aceitar, que seu pai encabeçava toda a ação. Que o homem por quem um dia nutrira tamanho orgulho não passava de um corrupto qualquer, como aqueles de quem ela sentia asco quando diante de tantas notícias nos jornais.

Ela chegou ao seu destino vinte minutos depois. A caminhada tinha sido vagarosa, permitindo sentir o odor suave das poucas árvores que enfeitavam aquele charmoso bairro.

Seu Izaque, o zelador, estava à frente, prestes a fechar os portões do colégio, com seu mascar usual de chicletes, bigodes bem aparados e olhar de brilho perscrutador.

– Os meninos já foram Julia – ele falou tão logo ela se aproximou o suficiente para ouvi-lo – Acho que desceram pra praia – seu tom era de quase reprimenda, como se ela tivesse culpa pela escolha dos amigos – Estavam muito salientes para que eu acredite que iam pra casa.

Ela deixou aparecer a sombra de um sorriso que não lhe tomou os olhos. Seu Izaque, por sua vez, sorriu cuidadosamente, as mãos calosas bagunçando os cabelos da jovem.

– Cê fez falta essa semana – ralhou – Eles ficaram te esperando até agorinha – o sorriso dela aumentou um pouco e ele se sentiu feliz por ter contribuído minimamente – Corre lá senão tu perde o a farra.

Ela lhe deu um breve abraço e seguiu seu caminho, ainda lentamente.

O sol morno daquela tarde deixava um véu de mormaço subir pelo asfalto quente. Até a praia, bastava atravessar duas pistas e um calçadão, o que não levou cinco minutos. Em instantes ela os via, barulhentos, vaporosos, estranhamente irritantes com sua felicidade.

Gustavo estava sentado um pouco distante dos demais, observando a movimentação do seu povo. Ele era o mais silencioso da turma e lidava muito melhor com as palavras. Mais à frente Lucas despia as vestes deixando ver o corpo extremamente magro, a cabeleira furiosa ao vento, o sorriso gigante no rosto. Henrique, também chamado de Coricó, com seu moicano densamente elevado, acompanhava-o correndo atrapalhado em direção ao mar, de modo que, ao fim, jogaram-se, ambos, às ondas.

Melodia, Patrícia e Geovan a viram chegar e gritaram em uma contagiante alegria embriagada. Eram todos tão artistas que se equilibravam em qualquer lugar, davam pulos, piruetas e performances outras arrancando aplausos e risos.

Qualquer um poderia dizer que o Grupo de Teatro da escola nunca tivera componentes tão naturalmente estrelares.

Ela sentou ao lado de Gustavo, o confortável calor do corpo amigável a alcançando quando o braço sem músculos aparentes enlaçou seu ombro.

Um copo plástico revelava uma bebida de coloração arroxeada que ela sabia ser vinho. Sentiu o cheiro adocicado que lhe chegou estranho ao olfato. Ele lhe empurrou o copo, fazendo-a forçadamente beber do líquido. E quase cuspiu, causando um riso solto no amigo que a aconchegou ainda mais ao abraço.

Sua experiência com aquela bebida provinha dos jantares realizados na casa do avô, tão apreciador a ponto de não entrarem em sua adega qualquer coisa que não fosse de extrema qualidade. Acaso pudesse ver a bebida que coloria a língua de sua neta de rosa e que a deixara zonza apenas pelo odor absurdamente doce – somado ao quase puro açúcar empapado em seu paladar – teria uma síncope. Ou uma nova síncope, considerando que seu coração já frágil batia agora lentamente no leito de um hospital.

Ela soltou um suspiro preso.

– Esse troço é muito ruim. – e a frase, completada por uma careta e mais um gole, arrancou novos risos de Gustavo, que com voz suave e extremamente morna respondeu baixinho.

– Beba, daqui a pouco estaremos grogues.

E ela bebeu, porque apenas a possibilidade de diminuir seus sentidos acalmava seu coração.

Em pouco tempo de amizade ele sabia exatamente do que ela precisava.

Da brisa do mar.

Das risadas dos outros arteiros artistas.

Do conforto daquele abraço.

Do gosto embriagante da bebida.

Ela chegou a esquecer de qualquer coisa acerca das paredes frias de um hospital, da balburdia de uma Assembleia corrompida ou de asquerosas grades – e tantas outras imagens que ultimamente lhe tomavam o sono. Ela esqueceu dela mesma, permitindo-se entrar naquela epopeia de cenas rotineiramente ensaiadas, avesso ao tempo e transeuntes quaisquer.

O vento balançou seus cabelos presos e, jogando-se para trás, ela se deixou fingir uma paz que verdadeiramente não sentia.

May you grow up to be righteous,

Que você cresça para ser justo,

May you grow up to be true,

Que você cresça para ser verdadeiro,

May you always know the truth

Que você sempre saiba a verdade

And see the lights surrounding you.

E veja as luzes ao seu redor.

May you always be courageous,

Que você seja sempre corajoso,

Stand upright and be strong,

Fique em pé e seja forte,

May you stay forever young,

Que você fique jovem para sempre.

Forever Young, Bob Dylan.

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