Elevar a dor, ou, enfim, tudo está no seu lugar

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Não era uma quarta-feira como outra qualquer, ela poderia dizer a todo passante que ousasse questioná-la.  Não era e não haveria de ser, porque naquele dia, coroado com uma chuva de primavera que se iniciou fugaz, um encontro clássico era esperado para a noite.

Ela não mentiria se dissesse que acordou cantando, não tinha esperanças, no seu peito retumbavam somente certezas. E, tão certa, passou o dia com um sorriso gritante no rosto, até mesmo contagiante. E a tristeza nem podia pensar em chegar.

Ela, personagem dessa história. Ela, um eu em outra voz.

Hoje, dois dias depois, posso dizer que a quarta foi de chuva porque se fazia indispensável lavar a alma. Lavar a alma, elevar a dor, jogá-la pra qualquer ponto do inferno que tinha se tornado torcer pro Bahia em tempos outros e se deixar vibrar até o rompimento das cordas vocais (recuso-me a chamá-las de pregas). Se alguém tinha dúvida, o apito final, minutos após as 23 horas, sacramentou: quarta-feira era dia do Bahia.

Polêmicas sempre pareceram anteceder ao clássico baiano. Na ausência de notícias outras que não sejam aquelas comuns, qualquer burburinho é motivo para se iniciar uma enxurrada de palavras, acusações, lamentos, retratações, dedos apontados e um sem fim de desculpas. Em decorrência do “nojinho” surgem frases como “quebrar a perna” e aí todo mundo já imagina a proporção que esse diálogo às avessas toma.

Feijão foi o personagem da vez. De outras feitas, Neto Baiano, ao tempo jogador do rival, já tinha reclamado os holofotes que antecediam à disputa. Os termos utilizados sequer podem ser comparados didaticamente, porque o segundo tinha baixos bordões a ele peculiares. Lembro muito bem dos risos midiáticos. Nosso Feijão, por outro lado, foi alçado à cruz. Não sei dizer se os tempos são outros, ou se a paciência com os jogadores do Bahia, ou advindos da base, é que é outra. Não quero me prender a elucubrações, afinal, Feijão verbalizou seu nojo, mas na quarta fez por onde. Foi o melhor cão de guarda da partida e, revendo cenas, o vi como salvador algumas vezes. Tinha sangue nos olhos, o menino.

E foi permeada de sangue, metaforicamente, que eu assisti à partida. Sem ataques brutais, exceto o de Luiz Gustavo que, sabe-se lá porque, achou por bem empurrar nosso Barbio depois de já perdida a bola, lance que resultou no cartão para Lomba e que, consequentemente, o retira do jogo contra o Goiás. Sobreviveremos a isso. Mas nem esse lance hostil conseguiu retirar o brilho da partida. E não digo isso porque saímos com o triunfo. Certo, muito por isso. Claramente, como torcedora, fica impossível esconder minha felicidade diante de uma conquista do Bahia e isso se reverbera ao ar considerando ser em cima daquele que, em suposição, nos trouxe tantos dissabores no início do ano.

Falo em suposto dissabor porque nossas dores vão para além do rival. Não, não é minha pretensão diminuí-lo, mas, convenhamos, toda a logística da coisa me leva a crer que o empecilho ao sucesso precedia ao time que se traja de vermelho e preto: tem preceitos muito mais estruturais. Sim, vivemos outro Bahia. E se um mês desde a posse da nova diretoria, completos em exatidão no dia 9, quarta-feira, dia do jogo, não tivesse sido suficiente para reafirmar isso, o triunfo contra o rival, depois de dois anos sem vencê-lo, reforçou a afirmativa.

Havia burburinhos quanto ao tabu, a limitação do time do Bahia e a “superioridade” do time rubro e negro.

Nada pareceu ser capaz de parar os jogadores tricolores, porque, por mais que o sangue pintasse em maior dimensão a camisa adversária, era no nosso plantel que ele entrava em ebulição. Se o jogo da primeira rodada já tinha gerado um orgulho gritante no peito da torcida do esquadrão, quarta-feira, às 23:05 do dia 09 de outubro de 2013, soado o apito final que encerrava a partida, nenhum cabia em seu próprio peito. E a chuva se mantinha a lavar a nossa alma.

Ainda estou rouca.

Muitas mudanças estruturais vieram. Muitas mudanças virão. E ninguém grite que está tudo lindo e maravilhoso, porque não está, mas acreditem (ah, acreditem), chegaremos lá.

Depois de uma noite em que o sono veio acompanhado de um sorriso que brincava nos lábios, ela acordou com a chuva que batia rudemente em sua janela.

Até deu uma olhada no tempo, aquele friozinho gostoso que incita a se manter na cama. As primeiras horas da manhã passaram rápido e o trânsito, insuportável para uns, e a quase tempestade, insustentável para outros, era uma sinfonia a seus ouvidos. De Bethoven, de Mahler, de Mendelssohn, qualquer um deles, porque ela sabia, com toda a certeza d’alma, que acaso a vida tivesse lhes dado a oportunidade de conhecer o Bahêa, eles não seriam outra coisa senão tricolores.

Manteve-se sorrindo durante toda manhã e quando a chuva não deu sinal de parar e o céu escuro se firmou em densas lágrimas, ela deixou passear em seus lábios um sorriso de lado e disse a quem quisesse ouvir, “guarda um pouco dessa dor para o ano que vem São Pedro”, pouco se importando pros que garantiam que o tal Santo é um tricolor de outras bandas. Para ela era incontestável, ele deve é gostar da coisa ruim mesmo.

E se houve arco-íris naquele dia, qualquer sinal de paz entre o céu e a terra, estava pintado de azul, vermelho e branco, afinal,

“Tudo está no seu lugar
Graças a Deus, graças a Deus
Não devemos esquecer de dizer
Graças a Deus, graças a Deus”

Benedito di Paula, Tudo está no seu lugar.

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