Reencontros, parte 1.

-89-CANGACEIROS-OST-93X160 CM-2006

Edmilson Costa, Cangaceiros (2006)

Para Joana, o dia seguinte chegou aos seus olhos como um banho de ressaca. A cabeça latejava, doída, enquanto as íris perdiam o foco, turvas. Tateou a saída da cama e derrubou o rosto sob uma jarra de água gelada pela noite fria.

Os cabelos grudavam à face molhada como um véu.

Limpou os olhos com as mãos fechadas sentindo-os inchados e tensos. Piscou. Além de uma claridade infinita não enxergava nada. Suspirou incerta. Não se lembrava da última vez em que a destilada a derrubara tal qual fizera na noite anterior. E, sabia, bastaram-lhe alguns goles.

Provavelmente porque passara a noite numa busca desenfreada, os olhares perdidos por entre as saias e bordados que bailavam sob o fogo quente da fogueira que acenderam quando o frio tomava o povo. As labaredas dançantes e a ânsia de sonhar de novo com aqueles olhos, a entorpeceram.

Não saberia dizer o quanto de álcool consumira na noite anterior.

Sequer como chegara à antiga cama que ainda tinha o cheiro gostoso de sua mãe.

Com os olhos vendados tentando acalmar o retumbar que batia em sua cabeça sentiu a presença do forte odor de fumo. Não precisou abrir os olhos para saber que seu velho pai estava ao alpendre da porta, como tantas vezes fizera no decorrer de sua infância. Respirou profundamente, tentando apanhar em seu pulmão o odor tão típico dos homens daquela terra, mas que nele parecia fluir de modo especial.

Abriu-os lentamente, sentindo a possibilidade do ver. De fato, o turvo dos olhos deixara apenas resquícios e a figura paterna pode ser apreciada em toda a sua forma. A barba cobria cada dia mais o rosto, mas jazia rala e os frios brancos já haviam tomado o seu lugar.

Os profundos olhos castanhos como um grande juazeiro sadio, lembrou-se. Quantas vezes sua mãe não lhes falara isso enquanto ele segurava a barra de sua saia e fazia-a dançar em seus braços. Tivera uma infância feliz, mesmo diante de tantas privações e sabia que muito tinha agradecer àquele senhor de olhos bondosos e que lhes dedicara tanto – toda a vida, todo o amor.

Ela levantou ainda tonta, um tanto cambaleante. Antes da possibilidade de verter ao chão, encontrou os braços tão grandes quanto um urso em cheiro de café, poeira e tabaco. Apertou-se àquele abraço que sonhara em tantas noites quando a solidão e a saudade alcançaram seus sonhos. Quando a culpa alcançava sua pele e a sensação de tê-lo abandonado fazia-a verter em lágrimas internas. Sabia o quanto estava molhada por dentro, ainda que fora apresentasse a sua face mais seca.

Aprendera, no sertão, enquanto vigorava os anos de cangaço, que o choro era para os fracos.

Antes disso, vira o pai chorar como um menino tantas vezes que não o considerava menos forte. Apenas alguém tomado pelas emoções de viver.

Deu um beijo molhado e quente na bochecha enrugada, sentindo em seus lábios a cova do sorriso paterno.

– Senti tanta falta minha menina – ele disse terno. E não havia como ela não acreditar na sinceridade estampada nos olhos.

– Eu também meu pai, eu também – sussurrou com todo coração.

Novamente, sentia-se em casa.

Chega
Toada velha cansada
Atrás do fogo encantado
Nesse terreno sem cerca

Seca
Meu olho teu caldeirão
Teu colo meu oratório
Teu sonhos meu cobertor

Toada velha cansada, Cordel do Fogo Encantado.

##

Outras frações da história de Joana poderão ser encontradas em https://fluxosdesconexos.wordpress.com/2013/09/06/degredados-filhos-de-eva/ e https://fluxosdesconexos.wordpress.com/2013/09/14/ah-que-caminho-tao-longe/.

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