Qualquer coisa de pressa,

Ela levantou suavemente. Raios de sol bailavam nas paredes muito brancas do quarto, refletidas pelo prisma transparente pendurado na janela. Os cabelos bagunçados deixaram-se preencher o ar quando um vento de fim de primavera ultrapassou as cortinas finas, balançando papéis e pelos, como ondas borbulhantes e sonoridade musical. Ela ouvia o tempo, sentido auditivo atento, ultrapassando o lugar comum. O dia talvez não pudesse ser revestido de qualquer pensamento cotidiano.

Era isso.

Era isso!

Não havia uma rotina a ser seguida, não havia a necessidade de postar um pé à frente do outro, ou preparar discursos a serem decorados e proferidos. Ela podia se valer do tempo em sua inteireza e ouvir, quiçá, toda sua sonoridade. Ela podia permitir-se fugir das regras que ela mesma se impunha, em sua peculiar forma metódica de ser.

Mas a sensação de liberdade era frágil, apenas por lhe ser desconhecida.

Era quase hesitante.

Alguns diriam inexistentes.

Não conseguiu resistir à embriagues dos passos decorados e, no mesmo horário de todos os outros dias, seguiu lentamente para o banheiro. A água morna que lhe cobriu o corpo tinha qualquer coisa de agradável e familiar. Ela percebia que seus planos esvaiam-se como aquela água que escorria pelo ralo, juntando-se a tantas outras em uma mesma direção. Tinha esboçado minuciosamente aqueles dias e vigia como plano primordial fugir de qualquer regra, qualquer coisa que lhe remetesse ao seu dia a dia. A seus passos estáveis.

Contraditoriamente, planejara fugir dos planos.

Mais ainda, fugir daquilo que era de sua essência: a segurança.

Pensara até ter começado bem, quando na noite anterior, correndo de todas as regras, parara em um bar qualquer, de reputação questionável, e sorvera todas as possibilidades de gostos, saboreando um número sem fim de bebidas, para, concomitantemente, sorver todas as possibilidades de corpos, apreciando, com o olhar, a juventude bailante daquele espaço.

E mais, escolhera como companhia o ser que lhe seria mais inadequado ao seu espaço comum.  Um corpo estranho. Em todos os sentidos.

Naqueles olhos brilhantes, porém, havia uma promessa de tantas possibilidades…

Imagens nítidas lhe preencheram a mente e não pode evitar que um sorriso insistente lhe tomasse o rosto. Nunca fugir da rotina lhe fora tão prazeroso. Se é que já o tivesse feito em outros tempos.

As lembranças da noite anterior foram suavizadas com a chegada de outro corpo às suas costas. Pele arrepiada ao contato quente. Um que de veludo. E então, labaredas que tomaram o espaço fazendo da umidade da água, fogo. Qualquer coisa de explosão e o uso exacerbado de todos os sentidos.

Um passo sequenciado quebrado.

Para ela, um delicioso até logo à sua rotina.

Depois de muitos anos, começava ali o seu primeiro dia de férias. Ou passasse a possuir, então, um outro nome: liberdade.

“Nem sei

Dessa gente toda

Dessa pressa tanta

Desses dias cheios

Meios-dias gastos

Elefantes brancos

Vagalumes cegos

Meio emperrados

Entre o meio e o fim

Meio assim

(…)”

Vagalumes Cegos, Cícero.

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