Sentimentalismos

Do meu peito, explosões de amor. Rimas e prosas se esvaem, escorrendo por veias e artérias, findando às extremidades, expelindo-se ao fim. Tanto calor nas palavras que saem da minha boca, que transpiram por meus dedos…

É o amor em forma de dias; em forma de meses; em forma de anos. Tempo.

É esse amor que não ousa dizer seu nome, mas que fala por si, inominado e liberto. É isso que me preenche e me torna chama viva. Flamejante, da cabeça aos pés. Um peixe que mergulha ao fogo e se transforma em água-viva, vívida em combustão.

No céu, estende-se uma primavera quase a ir enquanto o amor se despede das flores e frutas para um quase verão.

Foi nele que te conheci, enquanto borbulhante menina calada que via em seu olhar cambaleantes palavras. Te reconheci naquele dia que se banhava em seis de um fevereiro que neste instante me parece tão distante. Te vi ali naquela praça, talvez sem saber como olhar à mim.

Éramos então espelhos?

Te reconheci em mim quando me dei conta de outras vidas que não pareciam minhas, de outros mundos que não eram o meu.

Desde quando você está aqui, como se penetrasse em minhas entranhas e meu peito, como se apossasse de um pedaço? Desde quando me acolhe esse queimor de um pertencer quase inexplicável?

Ser.

Eu sou.

Você é.

Somos.

E tenho nesse dia doze um pedaço do nosso tempo. Um pedaço multiplicado de mim. E mais trinta e quatro vezes.

Sobre angústias.

Existem dias na vida de qualquer artista, grandioso ou desacreditado, em que a inspiração não consegue finalizar. Nenhum pensamento se converte em arte. Pura e simples arte. Nada é digno o bastante, as idéias tendem a não conclusão e o objeto de tanto trabalho é apenas uma metade.

Existem dias, na vida de qualquer poeta… Dias assim. Todo o corpo textual criado é desfavorecido por uma autocrítica que inspira comiseração. Nenhum escrito é merecedor de análise extra-criador.

Todo poeta passa por isso, todo artista passa por esse momento. Todo artista é poeta, todo poeta é artista. E o circo não tem mais aquela beleza. A vida não tem mais aquela beleza. As palavras não são mais tão belas. Não o quanto quisera que fosse, pois por serem palavras são já em sua natureza belas… (Aspas à vida).

E há um medo. Medo incomum de que algum passante-viajante-itinerante leia os esboços mal escritos.  Esboços de uma obra que nunca findará. E nunca finda. Estão espalhados pelos cantos da sala. Pelos cantos do quarto. Entre as folhas de um caderno colorido.

Há um medo.

Não que o poeta se menospreze ou menospreze aquilo que um dia escreveu… Há afinal uma modelação das palavras a transformando em um fino invólucro dos pensamentos, ou qualquer coisa similar que Virgínia Woolf disse um dia. Algo como…

“Os pensamentos são divinos”.

Os pensamentos são divinos?

A vida é, realmente, entre aspas…

Interessante é que tudo parece fluir quando as coisas estão bem. Ou quando estão ruins, também.

E existem dias assim…

Um quase.

Outro dia entre conversas ao mar reconheci que quando é morna a vida há um quase que incomoda, entristece e mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi.

Foi aí que descobri o mundo.