Ao tempo

É sobre mim que escrevo, pasmem. Não saberia fazê-lo doutro modo. Alheio ao meu corpo existem tantos mundos e dele não sei fazer parte. São minhas mãos que rabiscam textos, meus olhos que choram lágrimas, meu espírito que pede abrigo: de mais ninguém! Sou eu sobre mim. Me reconheço nessa tinta azul e a mais nada. Nos livros que leio, nos filmes que vejo, nas músicas que me tocam. É a mim a quem devo sossego e só o encontro em páginas brancas. Se a ti é preferível falar sobre o mundo, a mim sobre o mundo que me gira – e aí que dele sei tão pouco, quiçá das coisas alheias. Nada sei do sol que nasce do lado de lá, mas já li em livros: fazem parte de mim. Nunca vi a fome, a tragédia, o choro incontido do sofrimento, da guerra, mas a sinto em mim e dele choro pouco a pouco. Escrever é como mágica. O corpo fica oco. E alivia a pele ressequida pelo tempo, pelo vento, pela vida. Me amo tão e pouco que desmorono. É sobre mim que escrevo, pasmem. Só sei fazê-lo assim.

Em algum momento da vida.

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