RESENHA: Lo-lee-ta

“Às vezes me pergunto o que teria acontecido com a garota dos Haze…”

A frase é apenas uma fração dos pensamentos de Humbert-Humbert, que preenchem todo o romance, nesse caso em um encontro quase póstumo. A garota dos Haze é Dolores, Doly, a Lolita que chorava ao fim de cada disputa sexual, que à ele, um Humbert “sofrido de amor”, doava apenas falsos sorrisos, e à quem, também, ausentava-se de carinhos e querer. Eram muitas dissimulações e barganhas para que, ao fim, o nosso já velho e nada nobre narrador conseguisse aquilo que mais almejava – o suave toque de sua Lolita. Em plena sala de detenção, enquanto se enamorava visualmente dos longos cabelos loiros de outra ninfeta qualquer, em meio a um parque, enquanto admirava saias e sedosas peles de marfim, sempre agraciado pelo saboroso toque de sua menina castanha – de um castanho quase sensorial.

Tudo isso apenas para reafirmar o que muito já foi dito em críticas outras aqui do Skoob. Lolita foge, à léguas, do convencional. Foge, de tamanha forma, que deixa o leitor passeando por um misto de compaixão ao sofrido narrador, contante da história, e, num esforço de vencer as constantes justificativas desse indivíduo, cuja retórica ultrapassa a de muitos advogados atuantes, compaixão à própria menina Lolita, púbere vivente de 12 anos, objeto de desejo de H-H e muito distante de saber as peculiares coisas da vida.

Sim, há culpa. Apesar de passarmos toda a história nos desviando dela. Ou sendo levados a acreditar que ela não existe. E se existe, leva a cabeça de uma Dolores em si. Mas, compreendam leitor, era uma menina, engatinhando na arte do amor, vide sexo, e pouco sabia. Era apenas uma garota sem pai e, pouco depois, sem mãe. Era órfã e sozinha, condição esta que sempre lhe era rememorada.

Humbert, na figura do réu, é seu melhor advogado, mas não consegue forjar o que não existe: não era amor. Dentro daquele contexto, não poderia ser. Afinal, antes de tudo havia um padrão. Um padrão difícil de alcançar, ante a sua ilegalidade. Um padrão difícil de encontrar, vide a necessidade de uma máscara de ninfa. Uma outra jovem, tal e qual Lolita, também desamparada. Por isso esse apego ao corpo castanho de menina que Doly envergava. Por isso esse apego à sua Lolita.

Não era amor.

Desculpem a pressa no falar, a linguagem talvez áspera e que conte por demais a história que para alguns pode não ter sido lida. Mas há um que de asco e repulsa, há a singularidade do ler o que dói, o maquinismo incontrolável de se colocar no personagem, viver o personagem. Mas, na mesma proporção que Humbert me repeliu, Lolita me atraiu de tal forma, que em instantes me encontrei postada sob a sua pele, vendo-me como a garota violada. Uma, dentre tantas outras que a vida já me apresentou no decorrer de diferentes caminhos e cujo percurso final ganha uma similaridade de tamanha dimensão à personagem de Nabokov.

Não era amor.

Não poderia ser.

**

Em relação ao livro: Nabokov tem uma linguagem extraordinária que te envolve e te faz viver, história e personagem. Foi meu primeiro livro do autor e não será o último.

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Livro: Lolita  

Autor: Vladimir Nabokov

Tradução de Sérgio Flaksman

1ª ed., Alfaguara Brasil

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