Com Amor

M,

Talvez sejam esses meus cabelos bagunçados. Esse meu corpo mirrado de menino. Esses meus olhos dilatados, sempre vermelhos e inchados. Entenda. Não tenho culpa se a natureza me impôs esse corpo, essa feição de outras vidas – uma mistura genética praticamente inconcebível. Eu sei. Tem essas minhas mãos finas e longas. Essa miragem que é minha pele pálida de um quase azul. Esses estúpidos óculos de lentes fundas que insisto em usar.

Mas você não vê que existe algo para além dessa mera máscara de vida?

Enquanto isso, eu e você estamos sós. Enquanto eu te amo, de uma profundidade dilacerante. Enquanto você me ama. Apesar desse meu corpo abjeto. Apesar dessa minha face enfeitada de pequenos pontos vermelhos que amadurecem e me presenteiam de viscoso pus. Apesar disso tudo que sou eu desse lado de fora.

Apesar de.

Não lhe parece bonito ultrapassar qualquer carcaça? Ir para além daquilo que apenas se permitem os olhos?

Menina, seu coração bate em cima do meu. Sinto-o latejando, bombeado um sangue nosso, que já não consegue se dividir, como uma mistura de corpos numa noite escura e fria – entrelaces de braços e pernas, peles e pelos. E me vem um arrepio que percorre a espinha, alcança os cabelos, faz barulho no cérebro.

Estonteante imagem do eu e você. Eu, nessa carcaça desengonçada, de um quase pudico ar, você em exuberância vistosa.

Mas há algo que combina entre nós dois.

Algo que sequer você consegue negar.

Algo que nos preenche, quando o mundo emudece e seus olhos encontram os meus. Seus olhos, densas perolas que brilham a qualquer tilintar de luz. Seus olhos que vivem, em mim, sobre mim.

Reconheça.

Reconheça o pertencimento das nossas almas.

Reconheça que quando você me olha, com esse olhar profundo e majestoso, já não percebe mais o menino magrelo e acanhado que tem medo do mundo e do escuro, mas a si, mulher de corpo voluptuoso e sorriso que dilacera.

É quando a lente desse mundo que lhe cobre a íris se desfaz.

Com amor,

S.

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