Calado e seu silêncio

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Foi em um dia como outro qualquer. Era inverno, ou quase primavera, em algum momento daquele setembro. O tempo se mostrava ameno. O vento do litoral balançava os cabelos desavisados, murmurava palmeiras e árvores avessas, penetrando peles arrepiadas. Por sorte não chovia e a roda, daquele tipo composta por calças brancas e pés descalços, gingava sossegada.

Tinha um tal de remelexo. Um som espalhado pelo espaço. Uma cantoria envolvendo corpos. E suor e noite e luar de lua cheia, redonda, amante.

Calado apareceu com a roda já mexida. Apareceu, como era de esperar, em seu silêncio habitual. Era um sujeito tinhoso, baiano quase mineiro, do tipo que come quieto e doa aquele sorriso buliçoso para “deus e o mundo”. Nesse dia ele chegou até sem arreganhar muito os dentes o que causou uma estranheza danada entre os demais.

Chegou pelas beiradas, a calça folgada se arrastando com as bainhas pelo chão, o peito desnudo sem pelos, braços de músculos levemente distendido cruzados quase ofensivamente.

Calado, tão silencioso como de costume, custou a cruzar os olhos com qualquer um dos seus. Era de uma estranheza tão notável que até a vibração da roda, jogando em suave angola, arrefeceu, deixando no ar noturno um cheiro de problema/confusão/baixaria. “Qual foi a que Calado aprontou dessa vez?”, perguntavam-se os amigos mais chegados.

Aqueles que saiam rapidamente da roda até tentaram chegar mais perto, mas o bicho parecia estar mais atento às formigas que corriam de ser pisoteadas naquele chão de concreto que compunha uma das tantas praças daquela capital. A roda vibrava mais uma vez e o faltante voltava ao seu intento inicial, que fundamentava a sua presença ali: a cantoria na voz, as palmas nas mãos.

Até que Calado não aguentando a distância daquele rebuliço se encostou na roda, assentando-se num banco qualquer, logo recebendo um berimbau em suas mãos. Nessa hora até que ele cantou e quase parecia disposto àquele espetáculo que tanto amava.

A roda foi se desfazendo aos poucos. Capoeiras caminhando pra diferentes destinos enquanto a lua, cada vez mais diminuta em um céu quase sem estrelas, ia, vagarosamente, fechando a noite. Os transeuntes que assistiam se dispersaram suavemente. Mas Calado, mais silencioso do que de costume, continuava ali, dessa vez ao chão, pés descalços, berimbau na mão, entoando cantorias quaisquer.

Os amigos de Calado tinham um tal de um pacto de silêncio. Eram meio “bichos do mato” e ninguém era dado de se meter nas histórias de ninguém não! Era um negócio de não se envolver na vida do outro que o incitaram a deixarem o Calado lá, calado, enfurnado em seu mundo, envolvido em um trânsito cada vez mais lento naquela parte da cidade – seja trafego de carros, seja de pessoas.

Foi então que aconteceu.

Ela chegou com a saia de costume. Era rodada. Era de renda bonita. E branca. E voava com o vento daquela noite de inverno quase primavera. E Calado parou de tocar imediatamente. O ritmo que ouvia agora retumbava em seu peito e ele tinha plena certeza, era uma mistura de baião com samba, forró com rock, um tal de vuco-vuco que nem ele conseguia identificar.

Acontece que mais uma vez a danada não chegou sozinha. Ao lado dela um sujeito tal garboso, naturalmente arrumadinho demais, visivelmente muito diferente de Calado fazendo com que este reverberasse um bufo ruidoso, provavelmente o primeiro som que saia de seus lábios naquela noite.

“Só podia ser mulher”, um dos amigos ousou dizer num riso, recebendo o olhar cru de Calado que o silenciou rapidamente.

Ela chegou com seu rebolado usual. Lábios abertos, gengivas à mostra, dentes tão brancos de quase reluzir.

Os poucos que restaram fizeram festa. Eram abraços, beijos, palavras. Calado se mantinha calado, olhos fixos ora no chão ora na figura quase bailarina à sua frente. Ele até que tentou falar. Resmungou qualquer palavra pro maldito, deixou escapar seu sorriso mais aberto pra morena, e voltou a ressoar a corda do berimbau.

Não demorou até ela se aproximar e tremular qualquer palavra em seu ouvido, arrepiando os poucos pelos que o coitado tinha. O outro sujeito fechou a fuça, puxou o braço da pequena, quis fazer balburdia na frente da freguesia inteira.

Calado, capoeira de nascimento, levantou de um pulo num gingado só, assustando até mesmo os amigos que naquela noite já tinham se acostumado com o estado momentâneo de plena mudez do cabra.

O suor que percorreu suas costas era um sinal de mudança de tempo. O vento parou. Silencio de sepulcro, enterro, antevendo guerra mundial. O olhar vermelho previa sangue. Ela ficou no meio, lançando a Calado um daqueles olhares pedintes, um daqueles que ele conhecia, um daqueles de antes, quando ainda eram um par.

Um par antes dele se engraçar com outro rabo de saia qualquer, quase uma notícia no jornal, e perder a mulher.

Não é que Calado fosse do tipo mulherengo.

Estava mais prum sujeito da vida. Bicho solto. Do tipo que não pode se apegar a ninguém.

Mas coração tem aviso, por acaso? E que culpa ele tinha de apaixonar justo por Maria? Logo Maria que dizia que só trabalhava com exclusividade e nos seus termos? Até que a Dona Moça conseguiu segurar Calado por bastante tempo, mas ele tinha asa solta e suas gengivas chegavam em outras paragens antes mesmo de seu corpo.

Ele chamava gente. Incrivelmente, era de sua natureza calada.

E se Calado sentia falta de Maria que culpa ele tinha? A bem da verdade ele nem ligava pro tal sujeito que a segurava com tamanha posse. Ele se importava, sim, era com esse aperto que o rapaz dava na sua pequena como se Dona Moça tivesse coleira, sendo que ela era tão livre quanto qualquer passarinho que ele conhecia. Mesmo aqueles que ele ainda ousava prender em suas tocaias, só pra se arrepender no instante seguinte e largar solto.

Nem Dona Moça Maria sabia muito bem o que fazia na companhia daquele sujeito. Mas tinha consciência que Calado era do tipo boa praça até certo ponto. E no instante seguinte podia rapidamente perder as estribeira.

Ela olhou pros dois. De um lado a outro. Um monte de caraminhola percorrendo sua cabeça.

Suspirou vencida.

Duas vezes.

Calado ainda tinha fogo nos olhos. O outro tinha qualquer coisa que ela não conseguia identificar. Não o conhecia a tempo suficiente.

Olhou pros demais de ombros tensos que cercavam os três. Estavam atentos a qualquer necessidade de Calado, ela sabia. Eclodiria alguma guerra ali por acaso? Ela levantou a mãos pros céus. Outro suspiro cansado ultrapassando os lábios. E saiu porta a fora da roda, que já não era de vibrante cantoria. Ela iria era sambar em outro lugar.

Calado sentou mais uma vez no chão. O silencio reverberando seus espaços, vendo o outro correr atrás da saia de Maria que se lhe deu trela foi de escárnio, enquanto ele mesmo entoava:

Maria pé no mato é hora, Maria pé no mato é hora

Arriba a saia vamo-nos embora, arriba a saia vamo-nos embora

Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vá embora…

Caetano Veloso, Triste Bahia