Reencontros, parte 1.

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Edmilson Costa, Cangaceiros (2006)

Para Joana, o dia seguinte chegou aos seus olhos como um banho de ressaca. A cabeça latejava, doída, enquanto as íris perdiam o foco, turvas. Tateou a saída da cama e derrubou o rosto sob uma jarra de água gelada pela noite fria.

Os cabelos grudavam à face molhada como um véu.

Limpou os olhos com as mãos fechadas sentindo-os inchados e tensos. Piscou. Além de uma claridade infinita não enxergava nada. Suspirou incerta. Não se lembrava da última vez em que a destilada a derrubara tal qual fizera na noite anterior. E, sabia, bastaram-lhe alguns goles.

Provavelmente porque passara a noite numa busca desenfreada, os olhares perdidos por entre as saias e bordados que bailavam sob o fogo quente da fogueira que acenderam quando o frio tomava o povo. As labaredas dançantes e a ânsia de sonhar de novo com aqueles olhos, a entorpeceram.

Não saberia dizer o quanto de álcool consumira na noite anterior.

Sequer como chegara à antiga cama que ainda tinha o cheiro gostoso de sua mãe.

Com os olhos vendados tentando acalmar o retumbar que batia em sua cabeça sentiu a presença do forte odor de fumo. Não precisou abrir os olhos para saber que seu velho pai estava ao alpendre da porta, como tantas vezes fizera no decorrer de sua infância. Respirou profundamente, tentando apanhar em seu pulmão o odor tão típico dos homens daquela terra, mas que nele parecia fluir de modo especial.

Abriu-os lentamente, sentindo a possibilidade do ver. De fato, o turvo dos olhos deixara apenas resquícios e a figura paterna pode ser apreciada em toda a sua forma. A barba cobria cada dia mais o rosto, mas jazia rala e os frios brancos já haviam tomado o seu lugar.

Os profundos olhos castanhos como um grande juazeiro sadio, lembrou-se. Quantas vezes sua mãe não lhes falara isso enquanto ele segurava a barra de sua saia e fazia-a dançar em seus braços. Tivera uma infância feliz, mesmo diante de tantas privações e sabia que muito tinha agradecer àquele senhor de olhos bondosos e que lhes dedicara tanto – toda a vida, todo o amor.

Ela levantou ainda tonta, um tanto cambaleante. Antes da possibilidade de verter ao chão, encontrou os braços tão grandes quanto um urso em cheiro de café, poeira e tabaco. Apertou-se àquele abraço que sonhara em tantas noites quando a solidão e a saudade alcançaram seus sonhos. Quando a culpa alcançava sua pele e a sensação de tê-lo abandonado fazia-a verter em lágrimas internas. Sabia o quanto estava molhada por dentro, ainda que fora apresentasse a sua face mais seca.

Aprendera, no sertão, enquanto vigorava os anos de cangaço, que o choro era para os fracos.

Antes disso, vira o pai chorar como um menino tantas vezes que não o considerava menos forte. Apenas alguém tomado pelas emoções de viver.

Deu um beijo molhado e quente na bochecha enrugada, sentindo em seus lábios a cova do sorriso paterno.

– Senti tanta falta minha menina – ele disse terno. E não havia como ela não acreditar na sinceridade estampada nos olhos.

– Eu também meu pai, eu também – sussurrou com todo coração.

Novamente, sentia-se em casa.

Chega
Toada velha cansada
Atrás do fogo encantado
Nesse terreno sem cerca

Seca
Meu olho teu caldeirão
Teu colo meu oratório
Teu sonhos meu cobertor

Toada velha cansada, Cordel do Fogo Encantado.

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Outras frações da história de Joana poderão ser encontradas em https://fluxosdesconexos.wordpress.com/2013/09/06/degredados-filhos-de-eva/ e https://fluxosdesconexos.wordpress.com/2013/09/14/ah-que-caminho-tao-longe/.

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“Ah que caminho tão longe…”

Sertão do Moxotó, Pernambuco – 1954.

“Ah que caminho tão longe que ninguém se perde nele”, ela pensou arrastando a longa cabeleira dourada sobre os ombros, até enrolá-la completamente prendendo no topo da cabeça. O suor salgado escorria por seu pescoço delicado chegando aos ombros ligeiramente largos. O sol a pino fazia cintilar a terra como se a qualquer instante uma miragem fosse surgir e salvar todos os retirantes.

Ela sorriu do pensamento bobo que a perseguia desde o instante em que se enfastiara daquela caminhada de, se não perdera a conta no decorrer do caminho, longos dez anos. Vivia de passagem há tanto tempo que lhe seria irreconhecível cuidar da terra e do gado como seu pai ousara tantos anos atrás.

De que lhe adiantaria ver os bichos fenecerem de sede, definhando dia a dia até se tornarem alimentos para os urubus? Do que lhe adiantaria ver a terra se partir ao meio e o sol escaldante que lhes ardia os pés e a cabeça destruir as plantações que por vezes sequer germinavam?

Ruminava silenciosa, buscando ainda a sensação da brisa quente que passara por seu corpo segundos antes.

Alguém lhe ofereceu um mandacaru verde. Olhou para o outro. Seu irmão Benedito, em pé à sua frente, sorria-lhe com ar fatigado. Aquela andança derrubara todos os seus, ela podia perceber pelos ombros curvados, escondidos embaixo do grande juazeiro que encontraram minutos antes.

Naquele instante, ela liderava apenas dez homens.

“Liderara”, reformulou. O passado já não era mais o presente. E o cangaço, cada dia mais, jazia esquecido sob as armas dos policiais do sertão, sempre tão bem pagos pelos senhores de terra.

O governo Vargas havia derrubado todos os seus ídolos. E agora um áurea de ditadura parecia se aproximar do país. O sertão não estaria incólume a ela.

Pensou em seu irmão Corisco e em sua morte que nunca seria vingada. Era o mais velho, o líder de um bando por vezes visto como impetuoso, mas que, em verdade, buscava uma igualdade de seu povo. Pedia por água, por alimento, por vida. Ousava ir de encontro aos ideais aristocráticos que se instalara em sua terra de seca. E por isso eram repudiados e quase sempre vencidos.

Quantos dos seus não morreram em batalhas nunca findadas?

Seu irmão fora um deles. E os anos correram soltos, tornando-a líder do bando, protetora dos miseráveis, uma miragem dentre os homens de aparência rude e roupas grossas.

“Joana a justiceira”, não foi como fora chamada no último povoado pelo qual passaram dias antes?

Joana já não almejava mais justiça alguma.

O cangaço estava vencido. Ou pereciam nas mãos da policia da região, porque em algum momento eles os encontrariam, ou sairiam daquela vida desregrada. Depois de longas discussões, optaram pela segunda. E ali, embaixo do enorme Juazeiro, dava-se a grande despedida.

Talvez por isso ela olhasse tão profundamente para cada um dos seus ex-homens. Seu bando do qual tinha tanto orgulho da coragem, da honra, com que espantavam os inimigos. A rudeza nas mãos rasgadas pelo tempo e nos olhos, tão amarelados, não conseguia demonstrar a tamanha grandeza que possuíam em seus corações.

Após a morte do irmão mais velho ficaram apenas aqueles que lhes eram mais fiéis. E a protegeram como grande líder que era. Sabia que devia a sua vida a eles. Incontáveis vezes.

O sol ainda torrava e ela bebeu o líquido que vertia do mandacaru com sede implacável.

O temido fim chegava.

À frente a estrada tão infinita sob um véu de poeira causou-lhe um retumbar no coração. Em algumas horas alcançaria a construção de barro que fazia parte de suas melhores lembranças da infância, mas que jazia vazia de calor. Inerte diante do sertão que nunca virara mar.

Sua mãe não chegara a ver o seu maior anseio, acreditando piamente nas palavras do conselheiro.

Joana não acreditava em ninguém.

Apenas no cabo de sua peixeira e na cartucheira que alimentava sua pistola e que lhe envolvia o colo. Ali é que estava o seu coração e a sua esperança.

 

Oh! que caminho tão longe
Que ninguém se perde nele
Penando tanto arrudeio
Por causa das luminária
Das mães de Deus das Candêa

Salve, Cordel do Fogo Encantado

 

Para saber mais sobre Joana, em: https://fluxosdesconexos.wordpress.com/2013/09/06/degredados-filhos-de-eva/

“Degredados filhos de Eva”

Rio Branco, Pernambuco – 11 de setembro de 1928.

O suor escorria quente sobre as peles queimadas pelo sol. Lá fora o dia jazia claro e ardente enquanto a terra se repartia em bandas à expectativa da chuva que nunca vinha. O ar etéreo, sem vento, via quebrado o silêncio pelos urros que cortavam a garganta. Lá dentro, o espectro da escuridão no quarto que aguava em calor.

Nele, a tensão dos presentes podia ser sentida. Estava contida no odor, nas faces que expunham medos.

Seu Manuel Severo, Mané para os mais íntimos, encontrava-se encostado à porta, apertando o chapéu de couro puído pelo tempo, amargando a barba já rala que lhe cobria a face, os lábios crispados, os olhos agudos. Andava de um lado a outro e ousava, no máximo, chegar ao alpendre que lhe dera tanto trabalho para fazer – as lascas finas do angico às vezes se desprendiam furando os dedos de seus meninos.

Na cama, cujo colchão era feito com as folhas da aroeira, Celeste gemia. Banhada em suor, chorava a dor de mais uma contração que explodia em seu ventre já latente. O vestido colorido, que colocara mais cedo para a comemoração da independência da cidade, ainda assentava-se em seu corpo em meio ao líquido de aparência mucosa e o sangue que percorria as suas coxas.

Ao seu pé, Socorro lhe trazia algum conforto. Fora chamada em desespero por seu compadre, horas antes, quando Celeste apresentara as primeiras dores. Era a única parteira da região e, de suas mãos, muitos fetos ganharam vida – ou morte. A profissão aprendera com a mãe, que aprendera com a sua avó e assim por diante. Tornou-se um encargo de família do qual tinha muito orgulho.

Mal lembrava os rostos e os nomes dos ombros fortes ou seios fartos que sobrevieram. Sabia apenas que cresciam e produziam mais crias. Não ficaria sem trabalho, mas podia vê-los morrer da seca que os atingiam. Por quantos velara? Não tinha um número. Já vira caixões de juazeiro de todos os tamanhos, mas ainda permanecia viva, sentindo nos ossos o gosto do adeus.

Sua filha tremia ao seu lado. Para a menina ainda lhe era estranho aquele ato. A situação tão intima das partes de uma mulher expostas aos seus olhares. O constrangimento da dor, a possibilidade da ausência de vida. Nunca se sabia o que sairia do ventre.

A antecipação era, naqueles momentos, a melhor amiga.

Temeu pela possibilidade do não prosseguimento de seu legado, mas não pode perdurar no pensamento. A contração que se seguiu foi ainda mais forte e furiosa. Celeste apertava os lábios com os dentes produzindo um fio de sangue. O pedaço de couro fino que cobria a cama era esmagado por suas mãos, cujas veias se punham cada vez mais latentes. Dos lábios vermelhos mais um grito de dor extrapolou os ouvidos.

Alguns fios lustrados pelo sangue apareciam por entre as pernas abertas. Socorro pode ver a cabeça pequena sendo expelida brutalmente. Vermelha pela força, Celeste parecia perder o fôlego e, lânguida, apoiava-se aos cotovelos gemendo de dor.

– Força muié, a criança tá saindo! – a parteira reclamou chamando atenção de Seu Manuel que estava dois passos além do alpendre e retornou em apenas um invadindo o pequeno quarto.

Aproximou-se da mulher, segurando-lhe a pequenina mão direita entre seus dedos grandes.

– Minha preta – disse fitando a íris cinza da mulher, cuja tez, antes tão clara, expunha uma coloração avermelhada – Força…

Nos olhos acastanhados dele, que sempre a remetiam ao tronco de um juazeiro sadio, ela pode ver todo o amor que nutriam. As trocas de afeições desde a tenra infância, a amizade proibida, a paixão e o amor. O amor que venceu todas as tragédias e a seca. Que resultara nos quatro meninos que cresciam e que deviam estar correndo por entre as fitas coloridas dispostas no centro da cidade, brincando com a felicidade de se ter uma festa onde todo redor é miséria.

O quinto viria ali. Podia senti-lo rompendo as barreiras da natureza, subvertendo. Depois de dois filhos mortos no parto sabia o que a demora poderia causar e foi essa apreensão que lhe tomou os nervos.

Agarrou-se à mão calejada do marido e, com o resquício de força que descobriu ainda concentrada, urrou com todos os pulmões, vertendo de si a criança que prendia entre as pernas.

O choro preencheu o quarto, a pequena casa, o terreno insólito na qual se estendia. Forte e sentido, arrancou suspiros de alívio e sorrisos nos pais.

A parteira havia apanhado o bebê com toda sua experiência. Limpou-o calmamente, untando-o com a oração que sua mãe lhe ensinara. Seria protegido por Nossa Senhora das Candeias como todo seu povo.

– É uma menina – disse entregando o embrulho ainda ruidoso em direção ao colo materno. A criança se calou ante o cheiro de leite e os lábios rosados tentavam apanhar um dos seios que havia sido descoberto na tentativa falha do despir – Uma rapariga dentre os “rapaz” – sorriu já sem alguns dentes – Meu “trabaio” tá feito. Agora eu vou, mó de que ainda tenho uma festa pra participar.

Puxou a filha num tranco frouxo e em segundos saiam da casa em passos lentos. O sol escaldante daquela primavera, que mais parecia verão, lhes queimariam as cabeças, mas a manta de crochê as protegiam. Da janela Manuel viu as duas figuras se distanciarem até se tornarem um turvo entre a névoa da seca.

Depois seus olhos desceram até a cama onde sua mulher observava atentamente a nova cria. A face perdia pouco a pouco a cor avermelhada e a penugem que cobria a pequenina cabeça ainda tinha resquício de sangue, todavia os olhos observavam, semicerrados, a mãe, enquanto sua fome era saciada.

Naquele instante decidiu chamá-la de Joana. Joana do Nascimento Severo. Joana de Rio Branco.

A sua Joana por tanto tempo imaginada.

 

Ah! Joana Imaginária
Permita que o Conselheiro
Encoste sua cabeleira
No teu colo de oratórios
Tua saia de rosários
Teu beijo de cera quente

E assim na derradeira lua branca
Quando todos os rios virarem leite
E as barrancas cuscuz de milho
E as estrelas tocadeiras de viola
Caírem uma por uma
Os soldados do rei D. Sebastião
Mostrarão o caminho

Profecia (ou Testamento da Ira), Cordel do Fogo Encantado