Sobre um 19 de fevereiro de 1989.

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Eu tinha uns três anos, ou quase isso, e não devia entender muito de futebol – o que acontece até hoje -, mas fico imaginando aquele momento pretérito, em um 19 de fevereiro de tantos anos atrás, quando, ao fim de um jogo sem gols, o Esporte Clube Bahia registrou, mais uma vez, o seu nome na história do futebol brasileiro. Eu devia usar fraldas ainda, não acham? Devia estar com os olhinhos, ao tempo duas orbes gigantes enfeitando uma face miúda, voltados para a televisão na sala de estar, ou apenas constando ali, enquanto os meus – tão mais velhos – esperavam ansiosamente por um apito final. Devo ter visto a felicidade de meu tio, ou percebido sua euforia. Capitado a essência tricolor de meus primos e o passo errado que meu irmão daria anos depois. Devo ter observado tudo isso, afinal me permito acreditar que fui um bebê perceptivo – uma pequena engatinhante para a vida.

Por muitos anos o futebol baiano navegou nulo em minha vida. Nas primeiras linhas de minha história, dividi o quarto com um rival. E mesmo depois que a idade, a mocidade e quartos separados nos afastaram, preferia torcer para o nada a me vestir de um bicolor fúnebre.

O tempo passou. Para mim, para o Bahia. 25 anos. Águas tantas que correm e correram. Uma palpável decadência em quase 15 anos de completa obsolência, onde até os títulos conquistados, poucos, capazes de serem contados nos dedos, tinham um sabor amargo, um odor acre.

O sangue do Bahêa só continua a pulsar em suas veias por conta de sua torcida. É ela, apenas ela, capaz de manter viva a chama – o fulgor de um clube, a ideologia de uma nação. Comemoramos uma data célebre, uma data em que tinha tudo para semear confiança, esperança e crença na capacidade de um clube nordestino, desacreditado, em vencer. Essa confiança, que pintou o sorriso de muitos baianos há 25 anos e que definhou em meio a más atuações gerenciais, a manutenção de uma blindada oligarquia, o semear de corrupção e medo. E agora paira em nós o palpável sonho de se viver uma democracia que reaviva a chama do possível.

A fé não morreu! Ela vive em cada um de nós tricolores baianos, dos mais céticos aos mais confiantes. E deve ser relembrada hoje, em um 19 de fevereiro de 2014, às 19:30, em meio à Fonte Nova lotada, enfeitada por lágrimas e sorrisos.

Ser imbatível, apesar das adversidades. Levantar sempre, independente da queda. Ser vencedor. Ser Bahêa.

Saudações Tricolores. 

BBMP!

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Um a Zero

Ôh seu Cicinho, e aí como foi o jogo onti?
Ôh sua Cicinha, foi massa. Meu Bahêa brocou de 1 a 0

…brocou de 1 a 0.

…de 1 a 0.

                                                                                                         Um
                                                                                                           a
                                                                                                        Zero

Por um tempo fiquei me perguntando quem era o CSA. Acho que desde a primeira partida quando, surpreendentemente, ou pelo menos para mim, ele estreou com uma goleada. Talvez não me surpreendesse se fosse contra um Confiança da vida – peço antecipadamente desculpas ao meu nobre pai, mas em Sergipe não há tradição no futebol.

Só que não. Nós é que voltamos para casa com menos três no saldo de gols e uma torcida em pânico.

Como?
Onde?
Por quê?

Isso já foi e essas coisas acontecem. Não se ganha sempre, como reverbera o mesmo pai que se diz meu. O problema é se acostumar a perder.

Rá… É isso.

Em seis jogos do Bahia nessa Copa do Nordeste, qual foi o resultado mais elástico?

Eu sei, já prevejo o que vocês vão dizer. Formação nova, novo técnico, pré-temporada curta. Em algum nível eu entendo tudo isso, mas convenhamos…

Blá.

São tantas desculpas mocinhxs.

Tantas desculpas que fazem com que um placar de 1 a 0 se torne grande, uma preciosidade, um dormir de dentes abertos (como aconteceu comigo em certo 2a1, numa dessas quartas da vida).

E a noite estava bonita ontem. Caía uma chuva fina, quase como um pranto do céu, minúsculos pingos que, com a luz, davam uma aparência de véu tomando a fonte nova. O clima era tenso, mas, como sempre, era gostoso acompanhar os rostos desconhecidos, a mesma tensão e ansiedade na face de alguém nunca visto. Um amor comum. Um amor comum que faz com que todos que estão ali se tornem um só – uma só voz. Esquece-se desentendimentos políticos e externos ao jogo. Esquece-se quem faz dura oposição e quem é completamente a favor da atual diretoria. Ali, somos todos iguais. E a finalidade é uma só.

O problema, meus caros (e minhas caras, obviamente) é que o Bahia não faz jus a esse amor. Há muito tempo. Há tanto tempo que é até difícil lembrar um período de regularidade – independente da gestão que o vestiu. O Bahia não é o mesmo Bahia.

Não aponto culpados, se é que se pode falar em culpa, mas a sensação que tenho é que, lá atrás, ainda no vestiário, existe um bando que se vê como perdedor – um grupo que ainda não se vê como grupo, pessoas que não enxergam potenciais.

Isoladamente temos boas peças, ainda que não haja grandes nomes. Não precisamos de nomes, entretanto. É o espírito da equipe que tem que mudar. É a garra de vencer, a vontade de lutar até o último momento do apito final. É o espírito de “não há bola perdida”, e que tenho visto em Rhayner, que deve prevalecer.

Acreditar.

Então eu penso no CSA. Sério. Juro que penso, porque até agora não consigo entender como aquele time, aquele de ontem, sem qualidade técnica e irregular, conseguiu estrear com uma goleada. A mesma que me gerou dor de cabeça e uma grande interrogação.

Eles fizeram o primeiro gol aos dez, mas não pararam. Eles tinham que fazer mais, eles sabiam que podiam fazer mais.

Tudo bem, não há qualidade na finalização do Bahia, mas, convenhamos, não há qualidade em TODO O CSA. A diferença? Eles acreditaram. Eles acreditaram e pegaram um Bahia sem coesão – o que ainda se encontra, na medida do tempo – e que gosta de perder bola. Dentro da área principalmente. Eles acreditaram e saíram em um primeiro tempo com três gols nos ombros, conseguindo arrancar um quarto no segundo. 4 a 1, o placar, e placas vermelhas tomando meu corpo. De raiva. De vergonha. De qualquer coisa que não sei explicar.

O time que jogou ontem contra esse mesmo CSA poderia ter goleado. Se vocês assistiram o mesmo jogo que eu veria chances claras que pecaram na finalização. O que eu acho? Aquilo que vocês já imaginam. Eles simplesmente não acreditam. Porque eu não consigo pensar em outra coisa que não seja isso.

A equipe é boa.

A equipe é outra em relação à de 2013.

Mas ainda passeia entre nós o espírito de perdedor.

E dói. Mais do que ver um Santa ruim vencer um Conquista apagado é ver o Bahia vencer um péssimo CSA com um único gol de Rafael Miranda, numa tontice tão similar ao seu apelido que secretamente criei (não tão secreto já que o grito a cada passe do cidadão).

No meado do segundo tempo houve o silêncio. O silêncio sepulcral de se ver de fora, a desclassificação beirando os minutos, ouvidos mais atentos do que os olhos a um apito final que ocorreria quilômetros longe dali. Um pedido por um milagre. Que a estrela brilhasse mais uma vez. Era possível ouvir cada pequeno ruído da peleja. Um grito de Pittoni. O barulho da bola passeando pelo campo. A latente tristeza.

Quando o apito soou no Lomanto, era o fim.

E então, a leva de gente saiu do estádio; enquanto uns vaiavam, outros aplaudiam. Uma torcida novamente dividida.

Ao tempo

É sobre mim que escrevo, pasmem. Não saberia fazê-lo doutro modo. Alheio ao meu corpo existem tantos mundos e dele não sei fazer parte. São minhas mãos que rabiscam textos, meus olhos que choram lágrimas, meu espírito que pede abrigo: de mais ninguém! Sou eu sobre mim. Me reconheço nessa tinta azul e a mais nada. Nos livros que leio, nos filmes que vejo, nas músicas que me tocam. É a mim a quem devo sossego e só o encontro em páginas brancas. Se a ti é preferível falar sobre o mundo, a mim sobre o mundo que me gira – e aí que dele sei tão pouco, quiçá das coisas alheias. Nada sei do sol que nasce do lado de lá, mas já li em livros: fazem parte de mim. Nunca vi a fome, a tragédia, o choro incontido do sofrimento, da guerra, mas a sinto em mim e dele choro pouco a pouco. Escrever é como mágica. O corpo fica oco. E alivia a pele ressequida pelo tempo, pelo vento, pela vida. Me amo tão e pouco que desmorono. É sobre mim que escrevo, pasmem. Só sei fazê-lo assim.

Em algum momento da vida.

Gira, girar.

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Girassol de ouro que se doura, dura, deita ao fim de cada dia, gira ao sol, em solidão acompanhada de ritmos qualquer. Deixa-se colorir do amarelo e, por fim, devora o verde que te faz flor. Convoca-me às suas pétalas, ingere, mastiga, girando, eu e você, todo o jardim, ultrapassando os espaços naturais, num esticar mudo ao céu para além do entardecer.

Elevar a dor, ou, enfim, tudo está no seu lugar

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Não era uma quarta-feira como outra qualquer, ela poderia dizer a todo passante que ousasse questioná-la.  Não era e não haveria de ser, porque naquele dia, coroado com uma chuva de primavera que se iniciou fugaz, um encontro clássico era esperado para a noite.

Ela não mentiria se dissesse que acordou cantando, não tinha esperanças, no seu peito retumbavam somente certezas. E, tão certa, passou o dia com um sorriso gritante no rosto, até mesmo contagiante. E a tristeza nem podia pensar em chegar.

Ela, personagem dessa história. Ela, um eu em outra voz.

Hoje, dois dias depois, posso dizer que a quarta foi de chuva porque se fazia indispensável lavar a alma. Lavar a alma, elevar a dor, jogá-la pra qualquer ponto do inferno que tinha se tornado torcer pro Bahia em tempos outros e se deixar vibrar até o rompimento das cordas vocais (recuso-me a chamá-las de pregas). Se alguém tinha dúvida, o apito final, minutos após as 23 horas, sacramentou: quarta-feira era dia do Bahia.

Polêmicas sempre pareceram anteceder ao clássico baiano. Na ausência de notícias outras que não sejam aquelas comuns, qualquer burburinho é motivo para se iniciar uma enxurrada de palavras, acusações, lamentos, retratações, dedos apontados e um sem fim de desculpas. Em decorrência do “nojinho” surgem frases como “quebrar a perna” e aí todo mundo já imagina a proporção que esse diálogo às avessas toma.

Feijão foi o personagem da vez. De outras feitas, Neto Baiano, ao tempo jogador do rival, já tinha reclamado os holofotes que antecediam à disputa. Os termos utilizados sequer podem ser comparados didaticamente, porque o segundo tinha baixos bordões a ele peculiares. Lembro muito bem dos risos midiáticos. Nosso Feijão, por outro lado, foi alçado à cruz. Não sei dizer se os tempos são outros, ou se a paciência com os jogadores do Bahia, ou advindos da base, é que é outra. Não quero me prender a elucubrações, afinal, Feijão verbalizou seu nojo, mas na quarta fez por onde. Foi o melhor cão de guarda da partida e, revendo cenas, o vi como salvador algumas vezes. Tinha sangue nos olhos, o menino.

E foi permeada de sangue, metaforicamente, que eu assisti à partida. Sem ataques brutais, exceto o de Luiz Gustavo que, sabe-se lá porque, achou por bem empurrar nosso Barbio depois de já perdida a bola, lance que resultou no cartão para Lomba e que, consequentemente, o retira do jogo contra o Goiás. Sobreviveremos a isso. Mas nem esse lance hostil conseguiu retirar o brilho da partida. E não digo isso porque saímos com o triunfo. Certo, muito por isso. Claramente, como torcedora, fica impossível esconder minha felicidade diante de uma conquista do Bahia e isso se reverbera ao ar considerando ser em cima daquele que, em suposição, nos trouxe tantos dissabores no início do ano.

Falo em suposto dissabor porque nossas dores vão para além do rival. Não, não é minha pretensão diminuí-lo, mas, convenhamos, toda a logística da coisa me leva a crer que o empecilho ao sucesso precedia ao time que se traja de vermelho e preto: tem preceitos muito mais estruturais. Sim, vivemos outro Bahia. E se um mês desde a posse da nova diretoria, completos em exatidão no dia 9, quarta-feira, dia do jogo, não tivesse sido suficiente para reafirmar isso, o triunfo contra o rival, depois de dois anos sem vencê-lo, reforçou a afirmativa.

Havia burburinhos quanto ao tabu, a limitação do time do Bahia e a “superioridade” do time rubro e negro.

Nada pareceu ser capaz de parar os jogadores tricolores, porque, por mais que o sangue pintasse em maior dimensão a camisa adversária, era no nosso plantel que ele entrava em ebulição. Se o jogo da primeira rodada já tinha gerado um orgulho gritante no peito da torcida do esquadrão, quarta-feira, às 23:05 do dia 09 de outubro de 2013, soado o apito final que encerrava a partida, nenhum cabia em seu próprio peito. E a chuva se mantinha a lavar a nossa alma.

Ainda estou rouca.

Muitas mudanças estruturais vieram. Muitas mudanças virão. E ninguém grite que está tudo lindo e maravilhoso, porque não está, mas acreditem (ah, acreditem), chegaremos lá.

Depois de uma noite em que o sono veio acompanhado de um sorriso que brincava nos lábios, ela acordou com a chuva que batia rudemente em sua janela.

Até deu uma olhada no tempo, aquele friozinho gostoso que incita a se manter na cama. As primeiras horas da manhã passaram rápido e o trânsito, insuportável para uns, e a quase tempestade, insustentável para outros, era uma sinfonia a seus ouvidos. De Bethoven, de Mahler, de Mendelssohn, qualquer um deles, porque ela sabia, com toda a certeza d’alma, que acaso a vida tivesse lhes dado a oportunidade de conhecer o Bahêa, eles não seriam outra coisa senão tricolores.

Manteve-se sorrindo durante toda manhã e quando a chuva não deu sinal de parar e o céu escuro se firmou em densas lágrimas, ela deixou passear em seus lábios um sorriso de lado e disse a quem quisesse ouvir, “guarda um pouco dessa dor para o ano que vem São Pedro”, pouco se importando pros que garantiam que o tal Santo é um tricolor de outras bandas. Para ela era incontestável, ele deve é gostar da coisa ruim mesmo.

E se houve arco-íris naquele dia, qualquer sinal de paz entre o céu e a terra, estava pintado de azul, vermelho e branco, afinal,

“Tudo está no seu lugar
Graças a Deus, graças a Deus
Não devemos esquecer de dizer
Graças a Deus, graças a Deus”

Benedito di Paula, Tudo está no seu lugar.

Sobre o tempo, livros e pessoas

Joaquin Sorolla Bastida

Somos, eu e minha mãe, duas seduzidas pela literatura, seja ela de qual tipo for – ainda que eu, pessoalmente, passe longe dos pretensos livros de autoajuda. Por razões óbvias, meu gosto literário foi se construindo gradativamente e lembro com muita saudade de livros como “O menino do dedo verde” (Murice Druon) e “Pollyanna” (menina ou moça, de Eleonor H. Porter), que fizeram parte de minha infância quase juventude.

Por conta desse amor em comum, rememorar tempos passados é trazer à tona um número sem fim de recordações com os livros. Tínhamos em nossa casa, num interior não muito distante de Salvador, um quarto com acesso logo na entrada repleto deles e de todos os tipos. A estante branca tomava toda a parede e o aroma que preenchia o cômodo era uma mistura de papel e tempo. Dessas recordações, lembro-me bem dos fins de semana, quando minha mãe nos arrastava à capital para andanças infindas em meio à Avenida 7. Tentem fazer isso entre os oito a doze anos de idade e perceberão que aquele amontoado de gente caminhando para lugares diversos, arrastando uns aos outros como se fossem boiada, não somente é assustador como impactante. Para mim valia à pena porque quase sempre, ou sempre para ser melhor fiel à minha memória, voltava com um exemplar novo, com cheiro doce que só os livros possuem.

A livraria era sempre a mesma. Sempre a mesma porque nessa época minha mãe estava às voltas com diferentes tipos literários de cunho religioso, enquanto lia avidamente e trocava figurinha com as amigas da igreja, especialmente minha tia. Não é de se estranhar que As Paulinas era ponto certo a ser cumprido naquelas visitas e, sabe-se lá o porquê, parecia haver um lançamento semanalmente.  Enfim, enquanto minha mãe corria em busca de novidades eu me perdia na seção infanto-juvenil da loja. Devo dizer, a variedade era emocionante, não à toa quase sempre tinha que fazer a escolha entre três ou mais exemplares.

Voltando ao roteiro de uma história sem pé, lembro-me bem que após contato com os livros infantis mais caricatos e de extrema relevância, ressalvo, e depois de me mudar para Salvador, era uma pequena viciadinha, no auge dos meus 12 anos, na baixa literária dos romances de banca de revistas. Achava-me tão moça. Tão adulta. Julguem-me, mas, sim, li, talvez, toda coleção de Julia, Sabrina e companhia dos idos de 96 a 2000 com grande saciedade. E mais, consegui subverter a minha grande amiga, daquelas que enchem o peito de amor e orgulho, hoje Carolina Lima, a seguir a caminhada comigo.

Diferentemente da minha casa, seu pai, que gostava de livros com viés mais filosófico, não permitia a entrada de tal tipo de exemplar e, recordo-me bem, embaixo do colchão do quarto de Carol existia uma quantidade considerável de numerários. Trocávamos figurinhas e personagens, antes ou depois de brincarmos com suas Barbies, ou jogarmos balões de águas nos passantes, viajantes que perambulavam em frente à sua casa (especificamente para essa atividade tínhamos outras boas e fieis companhias).

Não sei lhes dizer quando deixei de lado esses romances semanais, mas em algum momento da minha vida eles se tornaram insuficientes. Talvez o culpado seja o próprio tio Schumam, pai de Carol, que me apresentou, ao tempo da ebulição hormonal literária, “O mundo de Sofia”, de Jostein Gaarden, e que me permitiu ver que aqueles tipos literários possuíam palavras fáceis demais. Ou, o pior, não me permitiam pensar.

Era uma jovenzinha indignada, necessitando experimentar outras possibilidades que ultrapassassem os muros escolares.

Ai surge outra lembrança brilhante de um Supermercado relativamente grande próximo ao local onde morava e que, juntamente com a editora L&PM, foi responsável por minha felicidade semanal. Isso por que, continuávamos a passear pelas Paulinas, mas ela já não me interessava tanto. Então prevaleciam as visitas semanais ao Supermercado, nas quais eu fazia questão de acompanhar a minha mãe, apenas para me deparar com aquele pequeno e circular mostrador de livros com um número reduzido de exemplares de bolso.

Eu pulava Agatha Christie (nunca fui do tipo fã de suspense), mas pegava qualquer coisa de Voltaire, Shakespeare, Sun Tzu, Camilo Castelo Branco, Sófocles, e, bem, os autores iam se multiplicando e quanto menos os conhecessem mais interessada ficava. Geralmente minha mãe limitava minhas aquisições, mas, às vezes, se eu mendigasse muito, ela me deixava levar até mesmo o terceiro. E antes que alguém levante qualquer dúvida em relação ao gosto literário da senhora minha mãe, saibam que cresci em volta à coleção de Jorge Amado e até mesmo, vejam só, Adam Smith e sua mão invisível que, de fato, só fui entender realmente anos depois quando já na faculdade. Acontece que ela tem uma predileção por romances mais doces, o que, de certo modo, também me agrada.

Aprendi com ela, ela aprendeu comigo e acho que ficamos bem assim.

Enfim, voltando à questão literária, depois de tio Schumman, foi Caio Vinicius, o grande Calainho, hoje mestre em literatura, que fez questão de me fazer entrar no mundo das palavras, literalmente, de cabeça. Foram tantas apresentações que, talvez, apenas talvez, não coubessem nesse texto porque, obviamente, alcançaria uma extensão indesejada.

Lembro, com saudade, do exemplar por ele impresso e encadernado de “Entrevista com vampiro” (Anne Rice) que me fez rever as escusas com os livros de suspense, mas que não teve o condão de me fazer gostar de Agatha Christie – e me perdoe aqueles que gostam.

Foi através dele que conheci Virginia Woolf. E minha trilogia de “As Brumas de Avalon” (Marion Zimmer Bradley) me foi presenteada por ele também, em um desses dias em que se comemora a idade. E teve Italo Calvino, especificamente com “O cavaleiro inexistente”, e o grupo de estudos no qual se produziam conversas e vinhos. Tantas memórias visuais, tantos roteiros.

Passado o tempo eu segui sozinha, porque a vida vai tomando seus rumos e a gente vai caminhando por diferentes direções, muitas vezes opostas. Eu optei pelo Direito, ele pela Pedagogia, mas ainda sobrava tempo prum café e uma rima. Depois nem isso.

Escrevo essa trajetória de leitora, especificamente nesse tempo e numa época em que voltei a conversar comigo mesma, entoando causos quaisquer, por que este foi um ano literário atípico. Consigo contar nos dedos os livros que degustei e, acreditem, nem no meu passado floreado por romances água com açúcar li tão pouco. Nem no período da OAB ou ao fim do curso. Nunca dantes no quartel de Abrantes.

Alguns anos atrás, uma dessas companhias que a vida leva e trás, nem um pouco amorosa, ressalvo, emprestou-me um livro chamado “O Físico” como exaltações inúmeras ao seu enredo. Talvez isso tenha sido há uns quatro anos, talvez menos, só sei que nunca, NUNCA antes, havia me deparado com Noah Gordon – e a primeira vez que o fiz foi diante daquilo que ele chamou de “a epopéia de um médico medieval”. Questionei-me se ele era Ulisses, mas essa pergunta nunca foi respondida. Perdoem-me os meus amigos médicos, mas entendo patavinas sobre medicina ainda que o bastante sobre automedicação e afins – e não joguem pedras, mais da metade da população também entende.

Enfim, tratando-se de um romance com cunho histórico me permiti experimentar a leitura e, caso tivesse verborizado contra, mais do que o fiz, morderia minha própria língua porque, convenhamos, o livro é maravilhoso.

E não é que passei até a nutrir certa simpatia com a medicina? Ela lá e eu cá, obviamente.

Trago esse assunto à baila porque no início desse ano minha mãe, minha confidente quando o assunto é leitura, apresentou-me a uma livraria até então desconhecida localizada no Shopping Itaigara, local que vou uma vez por ano, quiçá. Eu já estava em um momento capcioso da vida no qual algumas escolhas devem ser feitas e isso acabou atingindo alguns víeis – dentre eles o da leitura. Estava empolgada a começar a ler sobre religiões, sabe-se lá por que, e já tinha um livro sobre Budismo me esperando na cabeceira.

Bom, foi então que me deparei com Tariq Ali, meus caros. Tariq Ali e seu “quinteto islâmico”, que supriria naquele momento meus ânseios religiosos – ao menos no que se refere ao islamismo. Fui ao óbvio e optei por “Sombras da romanzeira” por ser o primeiro dos cinco. Só depois fui atrás de saber quem era esse tal de Tariq e me deparar com a revista Veja o chamando de terrorista (Reinaldo Azevedo comanda, uou!) só me empolgou ainda mais para lê-lo.

Mas ai, senhoras e senhores, surgiu “Xamã”. Para quem não sabe, Xamã é a sequência de O Físico, por assim dizer, e continua a saga da família Cole e o seu dom para a medicina. Garimpei na mesma livraria, ressalva-se. Mas o problema não para ai, porque se não bastasse Xamã existia “A Escolha de Dra. Cole” e, por favor, saber de antemão que um dos descendentes era do sexo feminino me fez entrar em quase colapso. De um modo ou de outro adquiri os três livros e os levei lindamente para casa.

E então veio o pacifico mundo de… NADA.

Por oito longos meses.

Foram oito meses lendo as maiores besteiras possíveis, mas nenhum livro digno.

Nenhum.

E a menina literária virou qualquer coisa. Nem Clarice seduzia. E olha que recebi bons exemplares nesse período. Nem Chico, que, convenhamos, é, pelo menos, musicalmente lindo. Absolutamente nada.

Passado o completo silêncio literário aqui estou eu após duas semanas inserida nos livros perdidos. Lá se foi o percurso de Xamã, lá se foi a tal da Dra. Cole e nesse exato instante dou adeus às romanzeiras e suas sombras, mas especificamente à Yasid, porque às vezes a gente tem dessas coisas de se apegar aos personagens.

E estou dando olá ao “O livro de Saladino”, para cumprir minha promessa de ler os cinco enquanto passeio por “A elegância do ouriço” (Muriel Barbery) que lamenta em minha cômoda há longos meses.

Juntar a fome com a vontade de comer.

E que tudo dê certo.

Oremos.