“Raimunda”

– Raimunda!

Ela gritou, com toda a intensidade de suas pregas vocais. Gritou como se não houvesse amanhã, como se seu grito fosse prenúncio para algo que estava a vir – em um instante já sequencial, do tipo que acontece agora, quando o agora era antes um futuro próximo.

– Raimuuuuuuuuuunda!

Tentou projetar a voz para além do ar, mas, com fôlego pouco, não conseguiu fazer soar mais do que qualquer coisa. Raiumunda já não era Raimunda. Era Munda, muda, mudinha que só. E, distante que estava, nem lhe passava pela cabeça esperar a criatura que corria, quase tola, enquanto o mundo se acabava entre seus pés.

– Raimunda! – o último suspiro enquanto os corpos se encontravam, trombando – RAIMUNDA! – há um que de felicidade, pelo intento alcançado, mas felicidade, amigos, não dura mais do que esse próprio instante já.

A dita cuja, então, se virou pra criatura que salivava.

– Quem?

Não era Raimunda, era alguma Railda.

 

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Uma volta (ou, o tempo)

Pintou as paredes do quarto como se fosse ficar.

 

Deixou rastros,

pegadas,

digitais.

 

A pele ainda no leito,

suspiros no espelho,

cílios no sofá.

 

Do vazio,

farto de pedaços,

costurou lembranças de quem não mais é.

 

Restou pesar,

mar de ausências,

fantasmas perdidos em armários.

 

E nos lábios uma súplica,

nunca expelida.

Sentimentalismos

Do meu peito, explosões de amor. Rimas e prosas se esvaem, escorrendo por veias e artérias, findando às extremidades, expelindo-se ao fim. Tanto calor nas palavras que saem da minha boca, que transpiram por meus dedos…

É o amor em forma de dias; em forma de meses; em forma de anos. Tempo.

É esse amor que não ousa dizer seu nome, mas que fala por si, inominado e liberto. É isso que me preenche e me torna chama viva. Flamejante, da cabeça aos pés. Um peixe que mergulha ao fogo e se transforma em água-viva, vívida em combustão.

No céu, estende-se uma primavera quase a ir enquanto o amor se despede das flores e frutas para um quase verão.

Foi nele que te conheci, enquanto borbulhante menina calada que via em seu olhar cambaleantes palavras. Te reconheci naquele dia que se banhava em seis de um fevereiro que neste instante me parece tão distante. Te vi ali naquela praça, talvez sem saber como olhar à mim.

Éramos então espelhos?

Te reconheci em mim quando me dei conta de outras vidas que não pareciam minhas, de outros mundos que não eram o meu.

Desde quando você está aqui, como se penetrasse em minhas entranhas e meu peito, como se apossasse de um pedaço? Desde quando me acolhe esse queimor de um pertencer quase inexplicável?

Ser.

Eu sou.

Você é.

Somos.

E tenho nesse dia doze um pedaço do nosso tempo. Um pedaço multiplicado de mim. E mais trinta e quatro vezes.