Naiá e o mar

Naiá tinha sorriso e vida nos olhos, mas dos lábios nenhum murmúrio se esvaia. Havia um silêncio ao seu redor, mesmo que todo o mundo pulsasse exuberante ruído. Naiá era calada, mas sua natureza reverberava palavras.

Mesmo que ela não soubesse.

Mesmo que ela não conseguisse explicar.

Seu silêncio dizia tanto.

Seu silêncio contava tantas coisas sobre Naiá…

Um dia Naiá saiu cedinho de casa, o brilho arroxeado do sol banhando o horizonte e o tempo ainda frio – quase gelado pela brisa da madrugada que morria. Sua mãe não a viu atravessar a casa de um único cômodo, passos tão silenciosos quanto ela mesma, nem sequer a viu abrir a porta, cuja ferrugem produzia ruídos que só podiam ser minimizados com muito cuspe.

Ela desceu a escadaria escorregadia do pequeno bairro onde morava, a descida do morro como sempre sendo sua maior diversão. Na vila, alguns moradores já acordavam – serem viventes do mar, que agiam conforme a maré. Ela acompanhou uma pequena leva de pescadores, que ralharam com ela, também em seus silêncios, mas não a impediram de segui-los. Ela os seguiria de todo jeito. Naiá tinha uma força e uma vontade que ninguém conseguia explicar.

Na praia, de areia escura e muito grossa, ela deixou os pés desenharem figuras enquanto caminhava em direção ao mar. Naquele dia Naiá viu o sol nascer, como há muito tempo não fazia – a coloração dourada pintando o céu e o calor atravessando sua pele marrom a ponto de arrepiar os pequeninos pelos. Desde… bom, desde um tempo que ela já não mais lembrava, quando ela ainda tinha um pai, quando ele ainda se fazia presente em corpo. E vida.

Dessa vez o sorriso de Naiá desceu de seus olhos e tomou os lábios. À medida que o sol ultrapassava nuvens, o sorriso de dentes pequenos crescia. O silêncio dentro de Naiá retumbava. Como se quisesse explodir para fora. Como se quisesse ser outro. Outro. Outro. Alguém mais.

Foi nesse dia que o mar a chamou pela primeira vez.

Resenha: O Mágico de Oz

Ou, sobre a belíssima forma de L. Frank Baum escrever livros.

“E então uma coisa muito estranha aconteceu. A casa rodopiou duas ou três vezes e começou a levantar voo devagar. Dorothy teve a sensação de que subia no ar a bordo de um balão.”

Lembro ter assistido ao filme “O Mágico de Oz” ainda muito pequenininha e Dorothy sempre esteve no meu imaginário. O escolhi para iniciar o ano e foi uma delícia devorá-lo. A estrada de tijolos amarlelos sempre me veio como referência de algo que vivi, ainda que nunca o tenha feito efetivamente.

Intencionalmente construído para crianças, considerando que seu autor iniciou as escritas infantis justamente por contar muito bem histórias aos filhos pequenos, penso que este é um livro pertinente a qualquer idade. Ele é simples, leve e trata de questões morais com tamanho cuidado que é difícil não se apaixonar por cada um de seus personagens. Somos, talvez, todos nós um pouco de espantalho, lenhador de lata, leão covarde, Dorothy e até mesmo Totó – Por quê não?

Somos todos um pouco Oz, personagem que dá nome ao livro, e que, talvez, passe a melhor e maior das lições: nem tudo é como achamos.

E existem máscaras.

O livro conta a história de Dorothy, uma menina que vive com os tios no mesmo Kansas dos Kent (super-homem e adjacentes),  um local seco e sem cor, aparentemente maltratado. É quando algo fantástico acontece – um pássaro? um avião? não, um furacão mesmo. A casa onde se encontrava Dorothy e Totó é içada ao ar  e hora (minutos, segundos?) depois a pequena se encontra em um lugar maravilhoso repleto de criaturas fantásticas. O mesmo lugar onde ela constrói amigos que talvez leve para toda sua vida. Ainda que apenas no santuário das memórias.

Mas do que isso é me permitir spoiler, o que de fato não cabe. É uma história doce demais para contar os seus meandros. E, sim, vale muito a pena.

Um adendo: Tem a beleza da edição luxo da Zahar, super em conta, capa dura e folhas delicadas. E eu não ganho nada com isso… 😉

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Livro: O mágico de Oz

Autor: Lyman Frank Baum

Tradução de Sérgio Flaksman

1ª ed., Zahar

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Esse livro integra a categoria escolhida para o mês de janeiro (“Livro que virou filme”), no Desafio Literário Skoob 2014 e no Desafio Diversidade Literária 2014, do facebook, tema fantasia.

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Ao tempo

É sobre mim que escrevo, pasmem. Não saberia fazê-lo doutro modo. Alheio ao meu corpo existem tantos mundos e dele não sei fazer parte. São minhas mãos que rabiscam textos, meus olhos que choram lágrimas, meu espírito que pede abrigo: de mais ninguém! Sou eu sobre mim. Me reconheço nessa tinta azul e a mais nada. Nos livros que leio, nos filmes que vejo, nas músicas que me tocam. É a mim a quem devo sossego e só o encontro em páginas brancas. Se a ti é preferível falar sobre o mundo, a mim sobre o mundo que me gira – e aí que dele sei tão pouco, quiçá das coisas alheias. Nada sei do sol que nasce do lado de lá, mas já li em livros: fazem parte de mim. Nunca vi a fome, a tragédia, o choro incontido do sofrimento, da guerra, mas a sinto em mim e dele choro pouco a pouco. Escrever é como mágica. O corpo fica oco. E alivia a pele ressequida pelo tempo, pelo vento, pela vida. Me amo tão e pouco que desmorono. É sobre mim que escrevo, pasmem. Só sei fazê-lo assim.

Em algum momento da vida.

Sentimentalismos

Do meu peito, explosões de amor. Rimas e prosas se esvaem, escorrendo por veias e artérias, findando às extremidades, expelindo-se ao fim. Tanto calor nas palavras que saem da minha boca, que transpiram por meus dedos…

É o amor em forma de dias; em forma de meses; em forma de anos. Tempo.

É esse amor que não ousa dizer seu nome, mas que fala por si, inominado e liberto. É isso que me preenche e me torna chama viva. Flamejante, da cabeça aos pés. Um peixe que mergulha ao fogo e se transforma em água-viva, vívida em combustão.

No céu, estende-se uma primavera quase a ir enquanto o amor se despede das flores e frutas para um quase verão.

Foi nele que te conheci, enquanto borbulhante menina calada que via em seu olhar cambaleantes palavras. Te reconheci naquele dia que se banhava em seis de um fevereiro que neste instante me parece tão distante. Te vi ali naquela praça, talvez sem saber como olhar à mim.

Éramos então espelhos?

Te reconheci em mim quando me dei conta de outras vidas que não pareciam minhas, de outros mundos que não eram o meu.

Desde quando você está aqui, como se penetrasse em minhas entranhas e meu peito, como se apossasse de um pedaço? Desde quando me acolhe esse queimor de um pertencer quase inexplicável?

Ser.

Eu sou.

Você é.

Somos.

E tenho nesse dia doze um pedaço do nosso tempo. Um pedaço multiplicado de mim. E mais trinta e quatro vezes.

Sobre angústias.

Existem dias na vida de qualquer artista, grandioso ou desacreditado, em que a inspiração não consegue finalizar. Nenhum pensamento se converte em arte. Pura e simples arte. Nada é digno o bastante, as idéias tendem a não conclusão e o objeto de tanto trabalho é apenas uma metade.

Existem dias, na vida de qualquer poeta… Dias assim. Todo o corpo textual criado é desfavorecido por uma autocrítica que inspira comiseração. Nenhum escrito é merecedor de análise extra-criador.

Todo poeta passa por isso, todo artista passa por esse momento. Todo artista é poeta, todo poeta é artista. E o circo não tem mais aquela beleza. A vida não tem mais aquela beleza. As palavras não são mais tão belas. Não o quanto quisera que fosse, pois por serem palavras são já em sua natureza belas… (Aspas à vida).

E há um medo. Medo incomum de que algum passante-viajante-itinerante leia os esboços mal escritos.  Esboços de uma obra que nunca findará. E nunca finda. Estão espalhados pelos cantos da sala. Pelos cantos do quarto. Entre as folhas de um caderno colorido.

Há um medo.

Não que o poeta se menospreze ou menospreze aquilo que um dia escreveu… Há afinal uma modelação das palavras a transformando em um fino invólucro dos pensamentos, ou qualquer coisa similar que Virgínia Woolf disse um dia. Algo como…

“Os pensamentos são divinos”.

Os pensamentos são divinos?

A vida é, realmente, entre aspas…

Interessante é que tudo parece fluir quando as coisas estão bem. Ou quando estão ruins, também.

E existem dias assim…

Um quase.

Outro dia entre conversas ao mar reconheci que quando é morna a vida há um quase que incomoda, entristece e mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi.

Foi aí que descobri o mundo.

Gira, girar.

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Girassol de ouro que se doura, dura, deita ao fim de cada dia, gira ao sol, em solidão acompanhada de ritmos qualquer. Deixa-se colorir do amarelo e, por fim, devora o verde que te faz flor. Convoca-me às suas pétalas, ingere, mastiga, girando, eu e você, todo o jardim, ultrapassando os espaços naturais, num esticar mudo ao céu para além do entardecer.

O meio.

Vento de furioso açoite balançava a pele fustigada. Aos pelos, subia vertigem sob seus pés enquanto mãos insípidas praguejavam contra o ar. Olhos pintados de profundo, ardor e medo, piscavam em tentativa frustrada de limpar a íris já maculada. Trovejou como o ar que entoava antigo cântico de chuva e jogou-se, perdendo o chão dos pés.

Lá embaixo, labaredas de volumosa água serpenteavam a cidade interiorana.

No alto, o brilho de ferro e ponte presenteado pelo sol que esvaia escuras nuvens.