“Raimunda”

– Raimunda!

Ela gritou, com toda a intensidade de suas pregas vocais. Gritou como se não houvesse amanhã, como se seu grito fosse prenúncio para algo que estava a vir – em um instante já sequencial, do tipo que acontece agora, quando o agora era antes um futuro próximo.

– Raimuuuuuuuuuunda!

Tentou projetar a voz para além do ar, mas, com fôlego pouco, não conseguiu fazer soar mais do que qualquer coisa. Raiumunda já não era Raimunda. Era Munda, muda, mudinha que só. E, distante que estava, nem lhe passava pela cabeça esperar a criatura que corria, quase tola, enquanto o mundo se acabava entre seus pés.

– Raimunda! – o último suspiro enquanto os corpos se encontravam, trombando – RAIMUNDA! – há um que de felicidade, pelo intento alcançado, mas felicidade, amigos, não dura mais do que esse próprio instante já.

A dita cuja, então, se virou pra criatura que salivava.

– Quem?

Não era Raimunda, era alguma Railda.

 

Naquele fim do mês de setembro ela sentou em uma praça fria da cidade cor de cinza. O dia tinha um calor morno, de sol ausente, ar abafado, nuvens escuras. Apesar dos sinais do tempo, não chovia. Era primavera afinal e, acaso morasse em outro lugar, outro lugar qualquer, provavelmente se depararia com flores variadas e coloridas, vida, muita vida, e não aquele mormaço sem vento.

Seus olhos vazavam, ainda que ela ousasse tentar controlar. O suor que escorria pela retina tinha um sabor sentido e vertia para se agasalhar em seus lábios comprimidos.

Ela golfou, em pânico. Depois bufou diante de sua própria fraqueza. Não conseguiu evitar a seqüência e expeliu, em jatos veementes, toda a angústia que brincava em seu estômago. Alguém passou com ar de nojo. Outro caminhou tomando longa distância. A maioria fingiu não ver.

Ela entendia muito bem sobre máscaras. Fingir não ver, por exemplo, era algo que ela mesma já tinha tomado como rotina.

Acariciou o ventre dilatado, trincou os dentes, fechou os olhos, depois deixou escorrer mais águas inquietas. Estava em pânico. Era a única coisa que conseguia explicar o tremor de suas mãos e a inconstância do choro em meio a um local público, no qual diferentes transeuntes caminhavam ensimesmados em suas próprias vivências.

Da extrema tristeza veio a ira. Socou-se, inconformada. Gritou ao vento. Enlouqueceu por alguns segundos.

Depois levantou frágil, persistente na ideia de caminhar em direção ao lugar do qual fugiu minutos atrás, desesperadamente só, mesmo que ao redor muitos se estendessem em lágrimas. Afinal, supunha então ser aquele um momento de despedidas.

O vestido escuro se balançou ao vento. O primeiro que a atingiu naquele fim de tarde. O mesmo vento que acalentou seus olhos aguados e a deixou suspirar como se alguma coisa de paz penetrasse em seu corpo. Ela sentiu uma fagulha de vida. Um vigor que achou ter perdido desde o início da noite do dia anterior, quando uma ligação em tom gélido informou sobre o acidente de trânsito no centro da cidade – sem sobreviventes.

Sucumbiu, então, enquanto a vida que crescia dentro de si se movimentava rudemente exigindo atenção e cuidado.

Algumas coisas simplesmente não permitiam atendimento, mas, naquele instante, tantas horas depois, ela prometia a si mesma responder sempre da melhor forma possível aos anseios do pequenino ser que se desenvolvia em seu ventre.

Ao limiar do grande portão de ferro que dava acesso a uma estreita estradinha de barro, onde pequenas edificações de cal e cimento pintavam o espaço, ela passeou os dedos longos pelo abdômen e deixou exarar um suspiro,

Close your eyes, have no fear, the monster’s gone, he’s on the run and your daddy’s here

Beautiful Boy (Darling Boy), John Lennon